quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Dando continuidade às obras de Molière, hoje vamos falar da peça ´Escola de Mulheres´





Escola de mulheres (no original em francês, L'école des femmes) é uma peça teatral de autoria de Molière. O enredo se passa em pleno século XVII e a comédia trata da infidelidade conjugal. Foi apresentada pela primeira vez em 26 de dezembro de 1662. Devido às enormes críticas que sofreu esta peça, Molière escreveu A Crítica à Escola de Mulheres (Le critique de L'école des femmes).


ATO I 

CENA I:

Crisaldo e Arnolfo CRISALDO Você me diz que vem pra se casar com ela?

ARNOLFO Exato. E até amanhã pretendo ter tudo resolvido.

CRISALDO Estamos aqui sós e acho que podemos discutir o assunto sem medo de que alguém nos ouça. Posso abrir o coração a um amigo?

O teu objetivo, Arnolfo, me faz tremer de medo. De qualquer ângulo por que se encare o problema, casar é, pra você, um ato temerário.

ARNOLFO Isso é verdade, amigo. Acho que no teu próprio casamento você encontra motivos para recear pelo meu. Na tua cabeça, é evidente, existe a certeza de que os chifres são o adorno infalível de qualquer matrimônio. 

CRISALDO São acidentes contra os quais ninguém está garantido; e quem se preocupa com isso não passa de um idiota. Mas quando eu me preocupo com você, é por causa das tuas zombarias, das quais centenas de maridos sentiram as ferroadas. Você bem sabe que nem grandes nem pequenos escaparam ao teu sarcasmo; pois teu prazer na vida é transformar em riso público as intrigas secretas.

ARNOLFO Exatamente. Existe alguma outra cidade no mundo com maridos tão complacentes quanto os nossos? Não os encontramos de todas as variedades, acomodados cada um de um jeito? Este junta mil bens para que a esposa os divida, adivinha com quem? Com quem o corneia.

Outro, com um pouco mais de sorte, mas não menos pateta, vê a mulher receber inúmeros presentes, todo dia, mas não se mortifica com ciúmes; porque ela o convence facilmente de que são os prêmios da virtude. Um grita muito, mas fica no barulho; outro deixa o barco correr em águas mansas e, vendo chegar em casa o galanteador, ainda vai, gentil, pegar-lhe a luva e a capa. Uma esposa, cheia de malícia, para evitar suspeitas, faz do próprio marido um confidente; e este dorme, tranquilo, até com pena do coitado que tanto esforço faz sem ser correspondido.



A história se passa no Século XVII. O tema da peça – o casamento e as mulheres – é constituído por cinco atos, divididos em cenas. É um texto de poucas rubricas. Não é apresentado um cenário. Sabe-se que há uma casa em que fica reclusa a personagem Inês, juntamente com as personagens Alain e Georgette.


Arnolfo, personagem que repele frontalmente a ideia de ser traído e, para isso, educa a jovem Inês para que ela se torne sua esposa ideal, criando-a na mais absoluta ignorância.



Por isso, sendo solteiro e desejando casar-se, seu objetivo concretizado foi o de criar uma menina desde a infância para tornar-se sua esposa fiel. Desta forma Inês entra desde cedo em um convento e assim desenvolve uma personalidade caricata, extremamente inocente, inapta para os conhecimentos do mundo malicioso e ingênua. Horácio, filho de um amigo de Arnolfo, surge para dar tensão ao enredo, já que se descobre doente de amor por Inês, e então encontra justamente Arnolfo como seu confessor, relatando a este sua situação com a moça e os casos que se sucedem ao longo da trama. Arnolfo, naturalmente, esconde o fato de que ele próprio é o homem de que Inês conversa com Horácio com o intuito de, sabendo sempre dos projetos que Horácio põe em prática, afastá-lo dela. O conhecimento de Horácio para com Inês se inicia quando ele entra em sua casa pela primeira e beija seus braços. A partir daí Arnolfo tenta convencer Inês de que este homem possui más intenções e que é para ele próprio que ela está destinada. Por outro lado, Inês sabe, a partir dos sentidos que são os seus e compreende que é à Horácio que deve maior afeto, afeto este que está sempre em vias do caráter incondenável de que se vale a própria “pureza” de Inês e pelo justo fato de não haver nenhuma dissimulação nesse sentido, não pode nunca ser nunca julgado por Arnolfo.



ARNOLFO (Um pouco pensativo).

O mundo, cara Inês, que coisa estranha é o mundo! A maledicência geral, por exemplo. Como todo mundo gosta de falar dos outros! Uns vizinhos me disseram que um homem jovem penetrou lá em casa em minha ausência e que você não só o viu, como ouviu também, com agrado, os seus... discursos. Mas é claro que não acreditei nessas línguas ferinas e apostei até na falsidade de ...

INÊS Por Deus, não aposte; era perder na certa.

ARNOLFO O quê!? É verdade que um homem...?

INÊS É certo, é certo! Mais até do que isso: quase não saiu daqui da nossa casa o tempo todo.

ARNOLFO (Baixo, à parte). Essa confissão, que faz com tal sinceridade, me prova pelo menos sua ingenuidade. (Alto). Mas me parece, Inês, se estou bem lembrado, que proibi você de ver qualquer pessoa.

 INÊS Sim, mas você não sabe por que resolvi vê-la. No meu lugar teria feito o mesmo. ARNOLFO Pode ser. Enfim, me conta lá a história. 

INÊS É uma história espantosa e difícil de crer. Eu estava na varanda, costurando ao ar livre, quando vi passar debaixo do arvoredo um rapaz muito bem apessoado, que, vendo que eu o via, me fez um cumprimento respeitoso. Eu, não querendo ser menos educada, respondi do meu lado ao cumprimento. Ele, rapidamente, fez outra reverência; eu, também depressa, respondi. Ele se curvou então uma terceira vez; e uma terceira vez eu me curvei. Ele passa, retoma, repassa, e, a cada ida e volta, se curva novamente; e eu, que, é natural, olhava fixo para esse movimento todo, tinha que responder a cada cumprimento. 

Tanto que, se em certo instante a noite não chegasse, eu teria ficado ali saudando eternamente. Pois eu não ia ceder e passar pela vergonha de ele me julgar menos civilizada.

ARNOLFO Muito bem. 




Temos o episódio que Arnolfo instrui Inês à lançar uma pedra contra Horácio quando o enxergasse, porém, em um segundo momento em que Arnolfo dialoga com Horácio, acaba por descobrir que ela enviara um bilhete através da pedra. Assim permanecem os papéis dos personagens, cujo desenrolar é instigante por sua comicidade e audácia. Em um segundo momento, Horácio declara que irá aparecer na janela de Inês à noite. Georgette e Alain, os criados de Arnolfo (que muitas vezes representam mais um empecilho do que o contrário), deveriam atacar Horácio, entretanto, eles o empurram da escada e concluem que ele está morto, quando em verdade ele apenas finge ter morrido. Por fim ocorre a fuga de ambos, Inês e Horácio. Ao deparar-se com Horácio à noite,este pede para Arnolfo para que Inês fosse disposta em sua casa a fim de que ninguém a encontrasse. À Inês, por sua vez, que não havia reconhecido Arnolfo na situação, recai o controle de Arnolfo que manda que a encerrem no quarto. Se encaminhando para o desfecho, Horácio soube que seu pai arranjou casamento para ele e, à esta altura, ainda tendo Arnolfo como confessor, busca ajuda. Em contraponto, Arnolfo, ainda incorporado neste papel duplo, orienta à seu pai (Oronte) que case o filho ainda que contrarie os desejos dele. Finalmente Horácio descobre ser Arnolfo o homem que mantém Inês em casa e descobre-se também que a moça com quem Horácio deve casar-se é, por uma série inexorável de acontecimentos, a própria Inês. O projeto de fidelidade indubitável que Arnolfo desenvolve desde o princípio, incluindo suas posições nesse sentido esboroam e se mostram equívocas. Crisaldo, o qual no início da peça escuta seu amigo Arnolfo se pronunciar e gracejar do adultério comenta que, para quem teme tanto ser corno, o melhor remédio é mesmo ficar solteiro. Fica patente que espécies de docilidade, respeito e obediência, forjados por uma vontade individual não são suficientes, no interior do matrimônio, para submeter à alma humana e afetar o ensejo pelas relações sinceras e profundas. De qualquer forma é significativo que, mesmo o casamento de Arnolfo com Inês não sendo consumado, este se sentir ultrajado, na medida que a certeza de suas ações não só é posta em dúvida como confrontada pelo destaque da emancipação feminina apresentada na obra.

Por fim a peça mostra que os cuidados que Arnolfo tem em arranjar uma esposa ideal e submissa, levam Inês aos braços de Horácio, mostrando toda fanfarrice do episódio.

Molière

Algumas montagens da peça foram feitas no Brasil. Em 2010 Uma produção dirigida por Roberto Lage contou com atores conhecidos como Oscar Magrini, Erik Marmo e Thais Pacholek.






2022: Uma montagem com cenário e figurino austeros, buscando uma atmosfera semelhante à do século XVII, foi encenada no Teatro Aliança Francesa


Fontes:

wikipedia.org
google.com
bileto.sympla.com.br
programadeleitura.wordpress.com
medium.com

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