“Sim, claro, se o tempo estiver bom amanhã”, disse a Sra. Ramsay. “Mas você terá que levantar com as cotovias”, acrescentou ela. Para seu filho, essas palavras transmitiram uma alegria extraordinária, como se tudo estivesse resolvido, a expedição estivesse prestes a acontecer, e a maravilha pela qual ele ansiava, durante anos e anos ao que parecia, estivesse, depois de uma noite de escuridão e de um dia de navegação, ao alcance do toque. Como ele pertencia, mesmo aos seis anos de idade, àquele grande clã que não consegue manter esse sentimento separado daquele, mas deve deixar que as perspectivas futuras, com suas alegrias e tristezas, obscureçam o que está realmente próximo, já que para essas pessoas, mesmo na mais tenra infância, qualquer giro na roda da sensação tem o poder de cristalizar e paralisar o momento sobre o qual repousa sua escuridão ou brilho, James Ramsay, sentado no chão recortando figuras do catálogo ilustrado das Lojas do Exército e da Marinha, dotou a imagem de uma geladeira, como sua mãe falou, com felicidade celestial.¨
Assim começa uma das obras mais conhecida da escritora britânica Virginia Wolf, ¨Ao farol¨
Virginia Woolf (1882-1941) foi uma escritora inglesa moderna. Teve um papel preponderante na literatura inglesa do modernismo sendo Ao Farol sua obra de maior destaque do período.
Segundo ela, a função do escritor é:
“(...) é transmitir a essência sempre em mutação da mente, por maior que seja a complexidade ou o intrincado das suas manifestações, com o menor número possível de elementos estranhos ou alheios a ela.”
Biografia

Virginia Wolf
Adeline Virginia Woolf nasceu em Kensington, Inglaterra, em 25 de janeiro de 1882. Filha de uma família burguesa, seu pai, Leslie Stephen, era editor e crítico literário. Por influência de seu pai e com uma boa educação, Virginia passou a se interessar pelo mundo literário.
Enquanto seus irmãos foram educados numa escola, ela por sua vez, foi educada em casa, fato que lhe deixou muito irritada. Na época, as mulheres ainda não tinham a possibilidade de estudar fora e por isso, passou muitas tardes lendo livros da biblioteca de seu pai.
Sua casa tinha uma biblioteca, e seus pais sempre recebiam a visita de artistas e intelectuais. Assim, a romancista cresceu em um ambiente propício a despertar o seu interesse pelos livros. Tinha nove anos de idade quando criou um jornal, que circulava no ambiente familiar: Hyde Park Gate News.
Porém, sofreu abuso sexual cometido por um meio-irmão, segundo relata em Momentos de vida. Quando a mãe faleceu, em 1895, a escritora teve sua primeira crise de depressão. A autora passou por mais uma crise depressiva quando o pai faleceu, em 1904. Nessa ocasião, foi amparada por Violet Dickinson (1865-1948), com quem mantinha uma forte amizade e se correspondia desde 1902.
Suas cartas demonstram, muitas vezes, um teor homoerótico. Por intermédio dela, Virginia começou a publicar artigos em periódicos como o The Guardian a partir de 1905. Nesse ano, também passou a trabalhar, voluntariamente, como professora de História e Literatura no Morley College uma vez por semana, durante três anos.
Em 1906, Woolf, em companhia da irmã e de dois irmãos, viajou à Grécia, onde o irmão Thoby (1880-1906) contraiu tifo e morreu logo depois em Londres. O casamento com o teórico Leonard Woolf (1880-1969), com quem mantinha forte amizade, ocorreu em 1912. O casal não tinha relações sexuais, mas possuía uma relação de companheirismo e troca intelectual.
Em 1915, Woolf publicou seu primeiro romance: A viagem. Já em 1917, Virginia e o marido fundaram a editora Hogarth Press. Mais tarde, em 1925, ela experimentou o sucesso literário com a publicação de Mrs. Dalloway. Nesse ano, conheceu a poetisa Vita Sackville-West (1892-1962), que se tornou sua amante e a inspirou a escrever o romance Orlando.
¨A violenta detonação que assustou Mrs. Dalloway e levou Miss Pym a ir até
a vitrine e se desculpar veio de um automóvel que se aproximara da calçada
bem em frente à vitrine da Mulberry. Os transeuntes, que evidentemente
pararam para olhar, só tiveram tempo de entrever um rosto dos mais
eminentes destacando-se do estofamento cinza-perolado, antes que uma
mão masculina fechasse a cortina, nada mais restando para se ver além de
um quadrado cinza-perolado.
Os rumores, porém, logo começaram a circular desde o centro de Bond
Street até Oxford Street de um lado, e a perfumaria Atkinson do outro,
passando, invisíveis e inaudíveis, como uma nuvem veloz recobrindo com
um véu as colinas, toldando de súbito com a sobriedade e a imobilidade de
uma nuvem os rostos que, um segundo antes, estavam completamente
dispersos. Agora, contudo, haviam sido roçados pela asa do mistério; haviam ouvido a voz da autoridade; o espírito da religião estava em
movimento, de olhos vendados e boca escancarada. Mas ninguém tinha
ideia de quem era o rosto vislumbrado. Seria o príncipe de Gales, a rainha,
o primeiro-ministro? De quem era aquele rosto? Ninguém fazia ideia.¨ ( Mrs.Daloway - p.11)
Na década de 1930, Virginia era uma escritora conceituada e dava palestras frequentemente. Contudo, ainda era acometida pelas crises depressivas. E sempre teve o apoio de seu marido. Porém, a escritora cometeu suicídio, no rio Ouse, em 28 de março de 1941, quando o país estava sofrendo com a Segunda Guerra Mundial.
Virginia era depressiva e tentou o suicídio outras vezes, como em 1914 depois da morte de seus pai. Dizia que ouvia os pássaros cantando em grego.
Era bissexual, mas dizia que não gostava de sexo. Suicidou-se com 56 anos no rio Ouse, com pedras nos bolsos do casaco para afundar mais rapidamente. Deixou duas cartas, uma ao marido e outra para sua irmã. Ao marido disse que ele a fez muito feliz, mas que temia voltar a ter acessos de loucura, e por isso punha fim a existência.
As obras de Virginia estão repletas de questões sociais, políticas e feministas. Dona de um espírito revolucionário, ele escreveu romances, contos e ensaios. Confira abaixo algumas das obras de destaque:
A viagem (1915)
Noite e dia (1919)
O quarto de Jacob (1922)
Senhora Dalloway (1925)
Ao farol (1927)
Orlando: uma biografia (1928)
Um teto todo seu (1929)
As ondas (1931)
Os anos (1937)
Entre os atos (1941)
Os três Guineus (1938)
Os diários de Virginia Wolf (autobiográfico)
Fontes:
brasilecola.uol.com.br
todamateria.com.br
humaniotas.urfn.br
literunico.com.br
wikipedia.org
google.com