Godofredo Rangel nasceu em 21 de novembro de 1884, filho de João Sílvio de Moura Rangel e Clara Augusta Gorgulho Rangel. Quarenta dias após seu nascimento, a família mudou-se para Carmo de Minas (ex-Silvestre Ferraz) (MG), onde foi batizado e viveu boa parte da infância. Aos 12 anos já escrevia, desde pequenos jornais manuscritos, com noticiários, páginas literárias, até peças de teatro nas quais atuou muitas vezes com papéis femininos.
Com a morte do pai, Godofredo se mudou, em 1902, para São Paulo, onde estudou no Colégio Oficial e ingressou na Faculdade de Direito das Arcadas - USP. Nessa época, devido às dificuldades financeiras da família, começou a trabalhar como escrivão de subdelegacia em um Posto Policial no Brás, em 1902. Em um de seus plantões conheceu o jovem poeta Ricardo Gonçalves.
Rangel foi transferido, algum tempo depois, para Belenzinho, onde alugou o sótão de um chalé, na Rua 21 de Abril, endereço que ficou conhecido como “Minarete”, uma república de estudantes, onde seria a sede do “Cenáculo”, quando Godofredo conheceu Monteiro Lobato. Lino Moreira, Tito Lívio Brasil, Albino Camargo, Cândido Negreiros, Raul de Freitas e José Antonio Nogueira. Começam a frequentar o Café Guarany, onde têm mesa cativa, centro da boemia literária do grupo.
"Minarete era como chamávamos o chalezinho amarelo da Rua 21 de Abril, no Belenzinho, uma rua sem calçamento, toda sebe de espinheiros. Devia haver, mas não me lembro, casas por lá, afora o chalezinho do Minarete, centro de um terrenão de Chácara. Uns cinqüenta metros de frente, cerca viva com o portão de ferro no centro – o clássico portão de ferro com pilastras de tijolos e vasos em forma de urna em cima. Dentro dos vasos, essas pobres plantinhas que lembram pés de ananás, mirradas, atrofiadas, impedidas de crescer pela angústia do espaço para raízes. No mais, laranjeiras, ameixeiras, creio que um pé de romã, o coqueiro ao lado, a horta e uma grande paineira à esquerda. Era ali a toca do Rangel, que pagava por ela 20 mil réis por mês."
Em 1903 inicia a correspondência com Lobato que irá, mais tarde, constituir o livro A Barca de Gleyre. É nesse ano que surge, também, o jornal Minarete, de Pindamonhangaba, de propriedade de Benjamim Pinheiro, que durou até 1907, e vários integrantes do grupo se iniciaram nas letras nesse jornal.
Godofredo se mudou para Campinas, em 1904, onde lecionou no Instituto Cesário Mota, célebre educandário da cidade, hoje extinto. Ainda em 1904 retornou a Minas Gerais, e fixou-se em Silvestre Ferraz, atual Carmo de Minas, onde lecionou. Conheceu José Fernandes, diretor do Colégio, que inspirará um de seus maiores personagens. Iniciou o namoro com a futura esposa.
Em 1906, já bacharel, casou-se com Bárbara Pinto de Andrade, que conhecera em Caldas. Em 1907 foi nomeado Promotor Público de Cambuí (MG), assumindo o cargo sem conhecer a comarca. Visita Monteiro Lobato, então Promotor Público em Areias, no Vale do Paraíba (SP). Em 1909 ingressou na Magistratura, e foi nomeado Juiz Municipal do Machado (MG), local que retratará em passagens do romance de estreia.
Em 10 de junho de 1909 nasceu seu primeiro filho, Nello, o maior responsável pelas informações sobre Godofredo; em 3 de maio de 1911, o segundo filho, Caio; em 7 de dezembro de 1912, o terceiro, Tullio.
Em 1916, suicidou-se em São Paulo o amigo Ricardo Gonçalves, poeta dos Ipês, provocando grande abalo nos membros do grupo.
De maio de 1917 a janeiro de 1918, publicou os capítulos do romance Vida Ociosa, na Revista do Brasil, toda a Falange Gloriosa, em rodapé no “Estadinho” (edição vespertina do Estado de São Paulo), e contos de Andorinhas. Publicou a gramática Estudo Practico de Português. Em 21 de fevereiro de 1917 nasceu sua filha, Duse.
Em 1918, deixou Santa Rita do Sapucaí (MG), para onde fora removido. Promovido a Juiz de Direito, serviu em Estrela do Sul, Três Pontas e Passos, lecionando sempre. Em Sapucaí, visando melhorar a receita, foi contador de uma usina elétrica.
Após muita persistência dos amigos, Godofredo consentiu, em 1920, na publicação de Vida Ociosa - romance da vida mineira, em livro, edição da Revista do Brasil, da Monteiro Lobato & Cia Editores. Em 1924 publicou seu primeiro livro de contos, Andorinhas, pela mesma editora; em 1929 publicou A Filha, uma narrativa romântica, em edição da Imprensa Oficial de Minas Gerais.
Os romances Falange Gloriosa e Os Bem Casados foram publicados postumamente. Rangel traduziu cerca de 70 obras, muitas delas publicadas por Lobato na Companhia Editora Nacional.
Em 1937 aposentou-se como Juiz de Direito de terceira entrância, titular da comarca de Lavras (MG), e foi residir em Belo Horizonte. Em 1939 foi eleito para a Academia Mineira de Letras (AML), ocupando a Cadeira número 13, cujo patrono é Xavier da Veiga e fundador Carmo Gama.
Em 1943 lançou dois livros infantis, Um passeio à casa de Papai Noel e Histórias do tempo do onça, ambos pela Companhia Editora Nacional, São Paulo. Em 1944 publicou o segundo livro de contos, Os Humildes, pela Editora Universitária, de São Paulo, com prefácio de Lobato.
Em 1944, Monteiro Lobato publicou a primeira edição de A Barca de Gleyre, englobando a correspondência entre ele e Godofredo por mais de 40 anos, de 1903 até 1948. Rangel recusou-se terminantemente a publicar suas cartas, alegando que elas não possuíam outro mérito além de provocar excelentes respostas de Lobato. Anos mais tarde o segundo volume de “A Barca de Gleyre” foi publicado, novamente com o habitual silêncio de Rangel.
Primeira carta S. Paulo, 9 de dezembro de 1903:
Rangel, anjo do Cenáculo:
Acabo de profanar a palavra ¨anjo¨, pois ao escreve-la arrotei. É que saí do almoço com as ingestões ainda mal assentadas lá dentro. E por que escrevo em momento assim impróprio ? Porque amanhã, sábado, entro em exame oral e estou com os minutos contados, a recordar definições e textos desta horrível séca que é a matéria. Escrevo hoje, em vez de após ao exame (como seria o natural), porque acabo de ler no Minarete * a tua primeira joia, meu Rangel, o teu primeiro vagido literário impresso, pois que manuscritamente tens vagido muito.....
Em 1948 faleceu Monteiro Lobato, e Rangel publica dois belos artigos lembrando o companheiro de toda a vida. No dia 4 de agosto de 1951, três anos após a morte de Monteiro Lobato, Godofredo Rangel faleceu em Belo Horizonte, aos 66 anos, vítima de uma enfermidade que há muito o assolava. Muitos dos seus amigos do “Minarete” já haviam falecido. Foi sepultado em 5 de agosto no Cemitério do Bonfim, na Capital mineira.
Em 1953 e 1954, foram publicados, em edições póstumas, os romances Falange Gloriosa e Os Bem Casados, ambos pela Melhoramentos.
A barca de Gleyre, foi publicada pela Editora Nacional em 1944. Tenho um exemplar, bastante conservado de 1946, da Editora Brasiliense Limitada. Reúne cartas envidas por Monteiro Lobato para Godofredo Rangel.
Mas por que A Barca de Gleyre?
Trata-se, evidentemente, de uma metáfora. A metáfora, na consagrada lição de
Lausberg, é definida como a “substituição de um verbum proprium por uma palavra; cujo significado entendido proprie, está numa relação de semelhança com o significado
proprie da palavra substituída” (LAUSBERG, 1972, P.163). O verbum proprium aqui
seria “cartas”, ou “epistolário”, ou “correspondência”.
Inicialmente, Lobato chegou a pensar num verbum proprium para o livro:
poderia ser Correspondência Epistolar entre Lobato e Rangel, como afirma em carta de
28 de setembro de 1943: “Correspondência Epistolar entre Lobato e Rangel ou seja lá
que nome venha a ter. Difícil botar um nome decente numa tijolada dessas.
Penso em
consultar a Emília, que é a ‘dadeira de nomes’ lá do Pica-Pau Amarelo” (LOBATO,
1964, t.2, p.358). Acabou, entretanto, optando por A Barca de Gleyre. O verbum
proprium ficaria reservado ao subtítulo da obra: Quarenta anos de correspondência entre Lobato e Rangel.
Sendo mais expressivo o nome metafórico A Barca de Gleyre que o de
Correspondência Epistolar entre Lobato e Rangel, acabou sendo o escolhido pelo
escritor ao publicá-las em 1944. Mas qual a origem desse nome? Como Lobato teria
chegado até ele?
Em carta datada de 15 de novembro de 1904, o escritor descreve um quadro do
pintor Charles-Marc-Gabriel Gleyre (1808-1874), intitulado Le Soir, ou Les Illusions
Perdues:
Nunca viste reprodução dum quadro de Gleyre, Ilusões Perdidas? Pois o teu
artigo me deu a impressão do quadro de Gleyre posto em palavras. Num cais
melancólico barcos saem; e um barco chega, trazendo à proa um velho com o
braço pendido largadamente sobre uma lira – uma figura que a gente vê e nunca
mais esquece (se há por aí os Ensaios de Crítica e História do Taine, lê o
capítulo sobre Gleyre). O teu artigo me evocou a barca do velho. Em que estado
voltaremos, Rangel, desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora?
Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as
velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios
de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas
ilusões. Que lhes acontecerá? (LOBATO, 1964, t.1, p.80-81)
Segundo Sueli Cassal, “o quadro Le soir foi exposto no Salão de 1843.
Essa ideia, de A Barca de Gleyre como uma metáfora náutica, ou seja, a
metáfora para a composição de uma obra, se reforça ao lermos o conceito que Lobato
fazia de seu epistolário, como encontramos na carta datada de 28 de setembro de 1943:
“a ideia que por enquanto tenho das cartas é que constituem uma tremenda ‘história
natural e social duma família do Segundo Império’ , digo, de duas formações literárias
que cresceram e apareceram”. (LOBATO, 1964, t.2, p.358).
A Barca de Gleyre é também um livro de Lobato, cheio de mistérios e aventuras, onde o protagonista, Pedro, um jovem sonhador, recebe um convite misterioso para embarcar em uma aventura única. Ele é convidado a entrar na Barca de Gleyre, um navio lendário que percorre os mares em busca de conhecimento e sabedoria. A bordo dessa embarcação, Pedro conhecerá personagens fascinantes e viverá experiências inesquecíveis.
Uma das marcas registradas de Monteiro Lobato são seus personagens cativantes. Em "A Barca de Gleyre", não poderia ser diferente. Além do protagonista Pedro, somos apresentados a uma série de personagens marcantes, como a sábia bruxa Morgana, o valente capitão da barca, Dom Quixote, e muitos outros. Cada personagem tem sua própria personalidade e história, o que torna a leitura ainda mais interessante e envolvente.
O pano de fundo da “barca” é uma metáfora para a viagem intelectual e cultural que os personagens empreendem. Eles discutem arte, literatura, política, educação e os desafios de construir uma identidade brasileira em um período de profundas transformações. Os conflitos surgem da polarização de ideias, do choque entre o tradicionalismo e as vanguardas que começavam a despontar no cenário cultural brasileiro.
A Barca de Gleyre é, então, a metáfora náutica que traduz a “aventura de arte”
de “duas formações literárias que cresceram e apareceram” “pelos mares da vida em
fora”.
Fontes:
wikipedia.org
google.com
portal.anchieta.br
llivroresumido.com.br
maxwell.vrac.puc-rio.br
literaturabrasileira.usfc.br
casashistoricaspaulistanas.blogspot.com
cliquevestibular.com.br