sexta-feira, 15 de maio de 2026



Vamos falar hoje da história da escrita e do alfabeto.





Durante milhares de anos os homens sentiram a necessidade de registrar visualmente, isto é, de "ler" as informações. Desenvolvida originalmente para guardar os registros de contas e trocas comerciais, a escrita tornou-se um instrumento de valor inestimável para a difusão de ideias e informações. Foi na Antiga Mesopotâmia há cerca de 6 mil anos atrás, que se desenvolveu a escrita.


A escrita cuneiforme


No início, a escrita era feita através de desenhos: uma imagem estilizada de um objeto significava o próprio objeto. O resultado era uma escrita complexa (havia pelo menos 2.000 sinais) e seu uso era bastante complicado. Assim, os sinais tornaram-se gradativamente mais abstratos, tornando o processo de escrever mais objetivo. Finalmente, o sistema pictográfico evoluiu para uma forma escrita totalmente abstrata, composta de uma série de marcas na forma de cunhas e com um número muito menor de caracteres. Esta forma de escrita ficou conhecida como cuneiforme (do grego, em forma de cunha) e era escrita em tabletes de argila molhada, usando-se uma espécie de caneta de madeira com a ponta na forma de cunha. Quando os tabletes endureciam, forneciam um meio quase indestrutível de armazenamento de informações.


Os Pictogramas eram difíceis de aprender e embora o método cuneiforme fosse muito mais fácil, a escrita àquela época era principalmente uma “reserva exclusiva” de escribas profissionais. Com o objetivo de determinar a posse de algo, quase sempre um selo era usado. Os selos primitivos constavam simplesmente de um desenho pessoal referente ao proprietário. Mais tarde, uma inscrição por escrito, seria também incluída.






A escrita cuneiforme teve muito sucesso. Milhares de tabletes de argila foram desenterrados contendo registros de transações comerciais e impostos de cidades da Mesopotâmia, e a escrita cuneiforme foi usada para escrever a língua sumeriana. A escrita cuneiforme também foi usada para a forma escrita das línguas da Assíria e Babilônia, línguas bastante diferentes da sumeriana. Embora a escrita cuneiforme fosse muito menos adaptada à estas línguas, a escrita foi amplamente usada no Oriente Médio, numa vasta gama de documentos, desde registros comerciais até cartas de reis. O sucesso da escrita cuneiforme foi parcialmente devido ao fato de que suas matrizes em forma de cunha eram bastante adequadas para o meio em que se escrevia - o tablete de argila.
















Com base na escrita cuneiforme são elaborados os hieróglifos. Não se sabe, todavia, onde e quando exatamente a escrita egípcia teria começado.


Na escrita hieroglífica alguns sinais assumiram uma representação fonográfica, às vezes de uma letra, outras vezes de palavras inteiras. Trata-se de uma escrita complexa e era utilizada em representações religiosas.


Além dessa, os egípcios desenvolveram sucessivamente outras formas de escrita, a Hierática - utilizada especialmente em textos literários, administrativos e jurídicos, bem como a Demótica - semelhante à hierática, porém mais simples, utilizada também em documentos jurídicos.






A forma mais antiga de escrita na China remonta a 1200 a.C. e, embora tenha sofrido alterações, ela resiste até os nossos dias.





A escrita chinesa é composta por cerca de 40 ou 50 mil caracteres, mas nem todos são necessariamente utilizados. Tais caracteres podem representar um som, uma palavra inteira ou mesmo um conceito.

A escrita chinesa é uma arte e para tanto requer habilidade e equilíbrio.





Alfabeto


A representação fonética foi desenvolvida pelos fenícios. A análise promovida por esse povo deu origem a 22 sinais, aos quais foram acrescentadas as vogais pelos gregos, ao mesmo tempo que foram abandonadas as letras cujos sons não existiam nessa cultura, passando, assim, a ser representada por 24 sinais.






O alfabeto fenício arcaico originou todos os alfabetos atuais. O sistema é composto por 22 signos que permitem a elaboração da representação fonética de qualquer palavra.


Alfabeto Fenício


Diferente do conjunto de representações do povo semita, o alfabeto fenício continha símbolos específicos.


Dessa evolução surge o nosso alfabeto, que tem origem no sistema greco-romano.


Letras gregas - Alfa e Beta
Alfabeto










Foi esse o alfabeto adotado pelos gregos por volta do século VIII a.C. Os gregos acrescentaram ao sistema mais sons vocálicos e o alfabeto passou a ter 24 letras, entre vogais e consoantes.


Com base neste sistema, um tanto mais refinado, originam-se outros alfabetos, como o etrusco e o gótico, na Idade Média; o grego clássico e o latino, que foi adotado pelos romanos.





Em consequência da expansão do Império Romano, o alfabeto latino foi largamente difundido.


Foram os gregos os primeiros europeus a aprender escrever com um alfabeto e seu sistema foi fundamental para o mundo moderno.


A palavra alfabeto, aliás, é de origem grega e representa a primeira letra (Alfa) e a segunda (Beta). Com a adoção de um sistema de notação silábica, os gregos influenciaram em todo o alfabeto moderno.


Alfabeto árabe:


Muitas das formas escritas primitivas, como a cuneiforme e a fenícia, surgiram e prosperaram devido ao comércio. A escrita permitia que os mercadores mantivessem o registro de suas transações e que os governos anotassem os bens das pessoas ou os impostos que deviam. Um subproduto interessante e frequente foi o surgimento de uma nova cultura literária. Os primeiros poemas épicos da Mesopotâmia e a profícua literatura da Grécia Antiga têm uma dívida com os comerciantes fenícios e sumerianos, que foram os “desenvolvedores” dos primórdios da escrita.








Os negócios comerciais não foram nem de longe a única influência sobre a escrita. No mundo islâmico, por exemplo, o repentino surgimento de uma nova religião do Islã estimulou o desenvolvimento e a difusão da escrita árabe. Esta escrita evoluiu, provavelmente durante os séculos IV e V, a partir das escritas do povo nabateu, que habitava as cercanias do monte Sinai. Baseia-se nos sinais originais das línguas semitas, com o acréscimo de outros sinais para diferenciar as sutilezas da pronúncia.


A fé islâmica foi fundada no século VII. O texto do Corão foi ditado por Deus ao profeta Maomé e teve que ser copiado pelos seguidores da sua fé. Estas palavras obviamente têm uma importância capital para os fiéis e devem ser descritas com perfeição e reverência. Consequentemente, a capacidade de escrever e a arte da caligrafia eram, e ainda são, altamente consideradas no mundo islâmico. O fato de que a representação de formas vivas seja proibida na arte islâmica fez com que a caligrafia se tornasse ainda mais importante. Além disso, a escrita tornou-se vital como uma forma de registrar os ensinamentos islâmicos e as descobertas científicas.




Alfabeto cirílico


alfabeto cirílico um sistema alfabético de escrita utilizado atualmente para representar a língua russa, além de várias outras na Europa oriental e na Ásia central. É também conhecido como azbuka, derivada dos nomes antigos das suas duas primeiras letras. Seu nome é uma referência a dois santos, Cirilo e Metódio, diáconos em Constantinopla, capital à época do Império Bizantino, mas, na verdade, acredita-se que seu criador seja São Clemente de Ohrid, que em algum momento durante o século X o desenvolveu a partir do alfabeto grego, acrescido de ligaduras e consoantes do alfabeto glagolítico e do búlgaro antigo para representar sons que não haviam na Antiga Grécia. Este novo sistema foi desenvolvido para registrar o antigo eslavo eclesiástico, a primeira língua eslava literária (Cirilo e Metódio foram na verdade o estruturador do alfabeto). Além do alfabeto grego foram acrescentados alguns símbolos inspirados na escrita hebraica para representar fonemas característicos das línguas eslavas.






Seguindo a orientação da origem grega, as anotações latinas são lidas da esquerda para a direita. Originalmente, o alfabeto latino é constituído por 26 letras (A,B,C,D, E, F, G, H, I, J, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, U, V, X, Y, W, Z).


A letra Z chegou ser descartada no século 250 a.C. porque o latim, neste período, não continha nenhum som específico para este sinal gráfico.




Alfabeto Português


O alfabeto de representação gráfica da língua portuguesa é o latino. Os países de língua portuguesa, que incluem o Brasil, aboliram as variações após a assinatura do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e acrescentaram as letras que notam os sons de K, Y e W.


Assim, esse alfabeto é grafado pelas letras, A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, U, V, X, Y, W, Z.






Fontes:
todamateria.com.br
infoescola.com
10emtudo.com.br
google.com

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Sumérios





A Mesopotâmia, localizada entre os rios Tigre e Eufrates, é frequentemente chamada de “Berço da Civilização”. Esta região, que hoje compreende partes do Iraque, Síria e Turquia, abrigou algumas das primeiras civilizações humanas, incluindo os sumérios, acádios, babilônios e assírios.

Sumérios: Os sumérios foram uma das primeiras sociedades a desenvolver escrita, arquitetura monumental e sistemas administrativos complexos. A escrita cuneiforme, desenvolvida por volta de 3500 a.C., foi uma das primeiras formas de registrar informações e desempenhou um papel crucial na administração das cidades-estados sumérias.




A mitologia suméria também é fascinante. Muitos mitos explicavam a criação do mundo e dos seres humanos. O mito de Gilgamesh é um dos mais conhecidos. Ele conta a história de um rei semideus que busca a imortalidade. Essa história é uma reflexão sobre a vida e a morte.





Além disso, os sumérios acreditavam em uma vida após a morte. Eles pensavam que os mortos iam para um submundo. Este lugar era sombrio e não oferecia descanso. Os rituais de sepultamento eram importantes para garantir uma boa passagem.

As histórias sobre os deuses e mitos eram passadas de geração para geração. Isso ajudou a formá-los como povo. A religião e a mitologia foram essenciais para a cultura e identidade sumérias. Elas influenciaram suas decisões e estilo de vida no dia a dia.

De antemão, foi na região da antiga Suméria, na Mesopotâmia, que surgiram as primeiras civilizações, como Ur, Uruk e Nipur.

Por volta do quarto milênio antes de Cristo os povos sumérios e acádios começaram a dominar uma região pantanosa da Mesopotâmia. Basicamente, foram os sumérios os responsáveis pela criação de um moderno sistema de drenagem. Além disso, trouxeram os núcleos urbanos, as primeiras civilizações.






O início da civilização humana foi bem anterior, mas eram povos nômades, que viviam de região em região e não formavam as ¨polis¨.

Portanto podemos chamar a primeira civilização conhecida de Suméria e localizá-la no sul da Mesopotâmia, atual Iraque.




Essa afirmação provêm de estudos e pesquisas que provam que a civilização suméria era composta por diversas cidades e possivelmente Uruk era a maior delas, mas todas eram bastante desenvolvidas.

As cidades eram muradas e possuíam ruas, casas, prédios públicos, templos e palácios. Temos então, o homem causando modificações no entorno natural, que podem ter sido intencionais ou não.

Assim como na Suméria, na Assíria, na Babilônia e no Egito que serão focalizados em outros módulos, esses povos viveram em cidades, das quais sobraram ruínas para contar sua história.

Uma cidade surpreendente e que talvez seja um exemplo único é Amarna, no Egito. Construída pelo faraó Akhenaton, que rompeu com a religião formal do seu país, a cidade ficou ocupada por menos de vinte anos, talvez. O grande interesse na cidade de Amarna é o fato de que não houve construções gigantescas em pedra, como nas outras cidades e também nada foi construído sobre o que existia.

Praticamente era tudo construído em tijolos de barro que não resistiram ao tempo, mas deixaram um testemunho da vida das pessoas comuns no Egito da época.

As fundações permitem um estudo das casas dos ricos e dos pobres, suas divisões ficaram preservadas de modo que se pode saber que o centro da cidade era dedicado ao complexo real. Templos, palácios, residências dos nobres e sacerdotes. Longe do centro, ficavam os subúrbios onde havia casas pobres e ricas e mais distante ainda ficavam os bairros dos trabalhadores.





Um dos subúrbios era habitado pelas pessoas que trabalhavam na necrópole, eram os pintores, os pedreiros, todos os que tinham funções relacionadas com a construção das tumbas. Suas casas eram pequenas mas tinham vários aposentos e eram separadas por ruelas estreitas.

Com o fim do reinado de Akhenaton, a cidade foi abandonada mas permanece como uma oportunidade única de estudo.




Fontes:

wikipedia.org
google.com
pt.wikibooks.org
guiadoestudante.abril.com.br
olhardigital.com.br
conhecimentocientifico.r7.com
historiamania.com

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Hoje 13 de Maio e 2026 comemora-se 138 anos da Lei Áurea.



As razões que a levaram tomar tal decisão foram várias e o processo que culminou no fim oficial da escravidão foi muito longo. A demora para a abolição foi tanta, que o Brasil foi o último país do Ocidente a ter abolido a escravidão.

O termo “áureo” é definido no dicionário como algo que é relativo a ouro. O intuito dessa associação era o de transmitir uma imagem positiva da lei, como um grande feito, uma grande benesse da monarquia e algo glorioso.






Faz parecer que a Lei Áurea fosse uma benesse da classe dominante, esquecendo a luta dos escravizados e outros abolicionistas  durante anos.






A escravidão foi uma instituição que se estabeleceu no Brasil por volta da década de 1530, quando as primeiras medidas efetivas de colonização foram implantadas pelos portugueses. Essa escravização ocorreu, a princípio, com os nativos, e, entre os séculos XVI e XVII, foi sendo gradativamente substituída pela escravização dos africanos que chegavam no Brasil pelo tráfico negreiro.





A escravidão no Brasil atendia à demanda dos portugueses por trabalhadores braçais (tipo de trabalho que os portugueses desprezavam) e, nos séculos XVI e XVII, isso está relacionado, principalmente, com o trabalho nas roças. A princípio, a relação de trabalho utilizada pelos portugueses foi a do escambo com os indígenas, mas logo optaram por implantar a escravidão.

A escravidão no Brasil foi tão cruel e a quantidade de africanos que foram trazidos durante três séculos foi tão grande que a imagem do trabalhador escravo em nosso país associou-se com a cor de pele do africano. Um sintoma evidente do racismo que estava por trás da instituição da escravidão em nosso país.

A escravidão no Brasil foi cruel e desumana e suas consequências, mesmo passados mais de 130 anos da abolição, ainda são perceptíveis. A pobreza, violência e a discriminação que afetam os negros no Brasil são um reflexo direto de um país que normalizou o preconceito contra esse grupo e o deixou à margem da sociedade.

Importante nos atentarmos que a escravidão também afetou milhões de indígenas e disseminou preconceitos em nosso país contra esse grupo também. O reflexo direto disso, além do próprio preconceito contra os indígenas, foi a redução populacional desses povos que de milhões de habitantes, no século XVI, passaram para cerca de 800 mil, atualmente.



Para que tudo terminasse com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, muita coisa teve de acontecer antes, já que o processo se deu de forma gradativa.

O primeiro passo foi a Lei Eusébio de Queiroz, sancionada no dia 4 de setembro de 1850. Ela proibia o tráfico de escravos para o Brasil. De imediato, a lei não surtiu nenhum efeito, dada pela baixa fiscalização da época.

Logo em seguida, veio a Lei do Ventre Livre, promulgada em 28 de setembro de 1871. Assinada pela Princesa Isabel, ela tinha um caráter abolicionista, já que considerava livre todos os filhos de mulheres escravas nascidas a partir da validação da mesma.

A Lei dava duas possibilidades as crianças: serem entregues ao governo ou ficarem sob os cuidados dos senhores até os 21 anos de idade.




No ano de 1885, mais exatamente no dia 28 de setembro, veio a sanção da Lei dos Sexagenários, que também ficou conhecida como Lei Saraiva-Cotegipe. Essa Lei concedia liberdade para os escravos com mais de 60 anos de idade. Poucos escravos foram beneficiados com a sanção da lei, já que poucos conseguiam alcançar essa idade, divido as condições com que eram tratados.

Rodrigo Augusto Silva - autor da Lei Áurea



No dia 13 de maio de 1888, 38 anos após o início do processo que visava libertar os escravos da crueldade com que eram tratados, foi apresentado à Câmara Geral, atual Câmara do Deputados, pelo ministro da Agricultura da época, Rodrigo Augusto da Silva, em 8 de maio de 1888. Foi votada e aprovada nos dias 9 e 10 de maio, na Câmara Geral.

A Lei Áurea foi apresentada formalmente ao Senado Imperial por Rodrigo Augusto da Silva em 11 de maio.



Foi debatida nas sessões dos dias 11, 12 e 13 daquele mês. Foi votada e aprovada, em primeira votação em 12 de maio. Foi votada e aprovada em definitivo, um pouco antes das treze horas, no dia 13 de maio de 1888, e, no mesmo dia, levada à sanção da princesa regente do Brasil Dona Isabel.

No domingo de 13 de maio, dia comemorativo do nascimento de D. João VI, foi assinada por sua bisneta Dona Isabel, e Rodrigo Augusto da Silva a lei que aboliu a escravatura no Brasil



Fontes:

wikipedia.org
google.com
mundoeducacao.uol.com.br
todadisciplina.com.br
nationalgeogrphicbrasil.com
brasilescola.uol.com.br

terça-feira, 12 de maio de 2026

O amante de Lady Chatterley - D.H. Lawrence




O romance foi publicado em 1928 e causou muita controvérsia, sendo proibido em várias países.


Esta era, mais ou menos, a posição de Constance Chatterley. A guerra tinha sido como um teto que lhe caísse em cima, e ela compreendera que seria necessário viver e aprender. Casara-se com Clifford Chatterley em 1917, numa altura em que ele estivera na Inglaterra a gozar um mês de licença. Tiveram uma lua-de-mel de um mês.

Regressara depois à Flandres, para voltar outra vez à Inglaterra, seis meses mais tarde, mais ou menos em bocados. Constance, a mulher, tinha então vinte e três anos e ele vinte e nove. O apego dele à vida foi maravilhoso. Não morreu e os bocados parecerem voltar a juntar-se outra vez. Durante dois anos andou pelas mãos dos médicos. A seguir foi dado como curado e pôde voltar de novo à vida corri a parte inferior do corpo, da cintura para baixo, paralisada para sempre. Estava-se em 1920. Clifford e Constance voltaram ao lar deles, ao lar da família, Wraghy. O pai de Clifford falecera, ele era agora um baronete, Sir Clifford, e Constance era Lady Chatterley. (p.4)



Constance Chatterley é uma mulher jovem, sensível e inteligente, casada com Clifford Chatterley, um homem que, após retornar da guerra, ficou paralítico e preso a uma cadeira de rodas. Apesar da tragédia, o casal manteve o casamento, sustentado por laços de amizade e companheirismo. No entanto, a ausência de intimidade física começou a pesar sobre Connie. Com o tempo, ela passou a sentir uma profunda carência de contato carnal e percebeu que algo essencial faltava em sua vida.

Buscando alívio para essa falta, Connie se envolve com Michaelis, um amigo de seu marido. No início, o encontro físico a satisfaz apenas parcialmente: ela aceita o prazer rápido de Michaelis e, só depois, tenta alcançar o seu próprio. Mas logo se decepciona, percebendo que ele é como tantos outros homens — egoísta, centrado em si mesmo, incapaz de compreender suas necessidades emocionais e físicas.



Obviamente que Michaelis não era inglês, apesar dos alfaiates, chapeleiros, barbeiros e sapateiros do melhor bairro de Londres. Não, era óbvio que ele não era inglês, tinha uma cara fora do comum, pálida e uniforme, e um rancor também fora do comum. Mostrava ressentimento e rancor, e isso era evidente para qualquer cavalheiro de genuíno sangue inglês, que nunca permitiria que tais sentimentos transparecessem. Pobre Michaelis, tinha sido tão maltratado, que ainda não perdera um certo ar de cauda entre as pernas. Tinha aberto o seu caminho por puro instinto e total ousadia até à cena, à boca da cena, com as suas peças. Tinha surpreendido o público e pensara que os maus dias tinham acabado. Mas não, nunca acabariam. De certo modo fazia os possíveis por ser maltratado, porque se imiscuía num meio a que não pertencia: a alta sociedade inglesa. (p.19)




Enquanto isso, Clifford, que não percebe o que acontece com sua esposa, sugere algo inusitado: que Connie tenha um filho com outro homem, contanto que não haja amor envolvido.

Essa representação estaria bem na obra de Nelson Rodrigues, onde a perversão atingia níveis inimagináveis.

Constance, a mulher de Clifford, tinha um ar de rapariga de campo, corada, com cabelo castanho e suave, um corpo robusto e movimentos lentos carregados de uma invulgar energia. Tinha uns olhos grandes e sonhadores e uma voz suave e doce. Parecia ter acabado de chegar da sua aldeia natal, mas não era. O pai de Constance era o velho Sir Malcolm Reid, que fora outrora bem conhecido por pertencer à Academia Real, a mãe fora um dos distintos membros da Sociedade Fabiana1 do período florescente, mais exactamente do período pré-rafaelita. Criadas entre artistas e socialistas cultos, Constance e a irmã, Hilda, tinham tido o que se poderá chamar uma educação estética, mas inconvencional. Haviam sido levadas, por princípios artísticos, a Paris, Florença e Roma; e, com outro, haviam sido levadas à cidade da Haia e a Berlim, a grandes convenções socialistas, onde os oradores falavam em todas as línguas civilizadas e onde ninguém se sentia intimidado. (p.5)


D.H.Lawrence

O ponto de virada ocorre quando Constance conhece Oliver Mellors, o guarda-caça da propriedade de Clifford. Mellors é um homem de origem humilde, mas com uma personalidade complexa e profunda, tendo servido como soldado e vivido experiências que o afastaram do mundo aristocrático. A relação que se desenvolve entre Constance e Mellors desafia as normas sociais e as expectativas da época. À medida que o relacionamento avança, ela se entrega a uma paixão que reacende sua vitalidade, o que contrasta drasticamente com a apatia de sua vida anterior ao lado de Clifford.

A paixão entre Constance e Mellors é retratada de maneira crua e sem eufemismos, o que fez o livro ser censurado por muitos anos em vários países, principalmente devido às descrições explícitas de suas interações sexuais. No entanto, Lawrence não se limita a criar uma história de adultério; ele utiliza a relação dos dois personagens como uma metáfora para criticar a sociedade inglesa e a alienação provocada pela crescente industrialização. Mellors, que trabalha como guarda-caça e vive em sintonia com a natureza, representa uma alternativa ao mundo mecanizado e distante de emoções de Clifford, cujas ambições o afastam da realidade concreta do corpo e da natureza.


E fitou-a com olhos estranhamente escuros. - Queres subir? - perguntou-lhe, numa voz estrangulada. - Não, aqui não! Agora não! - respondeu ela, num tom de voz pesado e lento. No entanto, se ele tivesse insistido, ela teria cedido, porque não tinha força para lutar contra ele. Ele voltou a virar a cara, dando a impressão de se ter esquecido que ela estava ali. - Quero tocar-te como me tocas - disse ela. - Nunca toquei realmente o teu corpo. Ele olhou-a e sorriu de novo. - Agora? - perguntou. - Não! Não! Aqui não. Na cabana. Não te importas? - Como é que te toco? - Quando me acaricias. Ele voltou a olhá-la e captou o seu olhar denso e inquieto. - E gostas quando te acaricio? - perguntou, a sorrir tranquilamente. - Sim, e tu? - Oh, eu! - depois mudou o tom de voz. - Sim, sabes sem perguntar. Era verdade. Connie levantou-se e pegou no chapéu. - Tenho de me ir embora - disse. - Tem? - perguntou ele delicadamente. Ela queria que ele a tocasse, que lhe dissesse qualquer coisa, mas ele não disse nada, apenas esperava cerimoniosamente. (p.147)

O vínculo físico, inicialmente movido pelo desejo, começa a se tornar mais profundo e íntimo. Lawrence descreve as cenas sexuais com uma delicadeza incomum, evitando a vulgaridade e transformando o erotismo em uma forma de reconexão com o corpo e com a vida. Para Connie, o sexo com Mellors não é apenas prazer, mas uma experiência de plenitude e de reencontro com sua própria natureza, distante da rigidez emocional de seu marido e da artificialidade da sociedade em que vive.

- Estás despida por baixo? - perguntou ele. - Sim! - Vou-me despir também. Estendeu os cobertores, pondo um de lado para fazer de colcha. Ela tirou o chapéu e sacudiu o cabelo. Ele sentou-se, tirou sapatos e as polainas, e começou a desabotoar as calças de bombazina. - Deita-te! - disse-lhe, quando já estava em camisa. Ela obedeceu em silêncio e ele deitou-se ao lado dela, puxou o cobertor para cobrir os dois. - Cá estamos! - disse ele. Levantou-lhe o vestido até aos seios e beijou-os suavemente, prendendo os mamilos nos lábios em leves carícias. - Ah, é bom, é bom - murmurou, esfregando subitamente a aura num movimento para se aconchegar na sua barriga quente. Ela abraçou-o sob a camisa, mas sentiu medo, medo daquele corpo magro, macio e nu, mas que parecia tão forte, medo daqueles músculos violentos. Ela contraiu-se com medo. E quando ele disse "é bom, é bom!" algo dentro dela estremeceu, e qualquer coisa no seu espírito acordou, pronto a resistir. A resistir àquela terrível intimidade física e a urgência da posse. E o êxtase violento da paixão não a invadiu. Ficou de mãos inertes no corpo do homem em luta. E, embora tentasse, não conseguia deixar de observar friamente, distante, o que se passava; e o movimento das ancas do homem era ridículo, e mais ridículo o frenesim do pénis até à pequena crise da ejaculação. Sim, aquilo era o amor, aquele movimento ridículo das nádegas, aquele esmorecimento de um pénis insignificante e húmido. Era esse o divino amor! Afinal, os modernos tinham razão em desprezar aquela representação teatral, porque, no fundo, não passava de uma representação. Tinham razão os poetas ao dizerem que o Deus que criou o homem teve um humor sinistro em o criar como criatura dotada de razão e obrigá-lo àquela posição ridícula, e a desejar cegamente aquela representação. (p.148)




Connie viaja para Veneza com sua família e, durante a estadia, descobre que a ex-esposa de Mellors invadiu sua casa, quebrando objetos e espalhando boatos. Clifford fica sabendo do ocorrido e chama Mellors para uma conversa que termina em desentendimento, resultando na demissão do guarda-caça. Connie, então, retorna à Inglaterra e reencontra Mellors em Londres. Juntos, planejam o futuro: Mellors entraria com o pedido de divórcio, enquanto Connie pediria o seu a Clifford, revelando que está grávida de outro homem sem mencionar o nome do amante.

Quando ambos estivessem livres, poderiam finalmente viver juntos. O sexo, nesse momento, sela o compromisso entre os dois. No entanto, Clifford se recusa a conceder o divórcio e exige que Connie continue em sua casa. O romance termina com uma carta de Mellors, na qual ele fala sobre sua nova fase de vida e sobre a esperança de que, um dia, ele e Connie possam se reencontrar e viver plenamente esse amor.




- Oh, não troces dele - disse Connie, ajoelhando-se na cama, pondo os braços à volta da cintura, de pele branca e delicada, puxando-o para ela de modo que os seus seios pendentes e oscilantes tocavam a cabeça do falo excitado e erecto e atingiam as gotas de humidade. Ela abraçou o homem com mais força. - Deita-te! Deita-te e deixa-me furar-te! Estava possuído de uma urgência súbita. Depois de acabarem e de se sentirem ambos de novo tranquilos, a mulher quis vê-lo outra vez, quis contemplar o mistério do falo. - E agora está pequeno e macio como um botão de vida disse ela, pegando no pénis, com a mão. - É lindo! Tão independente e tão estranho! E tão inocente! E entra em mim tão fundo! Nunca o deves insultar, sabes? Também me pertence, não é só teu. É meu também. (p. 181) 

Paralelamente à trama amorosa, o romance se aprofunda em discussões sociais e filosóficas. Em longos diálogos, Clifford e Connie revelam visões de mundo opostas. Clifford, aristocrata e proprietário de minas de carvão, enxerga o progresso industrial e o avanço do capitalismo como um caminho inevitável, embora desumano. Ele representa a mentalidade racional e mecanizada da Inglaterra moderna — um homem que substitui a vitalidade da vida por ideias e pela ambição de poder.


Perguntei-lhe se lhe seria fácil arranjar outro emprego. Respondeu-me: "Nada mais fácil, se me está a mandar para a rua". Não levantou qualquer problema quanto a ir-se embora no fim da próxima semana, e está a ensinar outro rapaz, Joe Chambers, os segredos do oficio. Disse-lhe que lhe queria pagar um mês a mais quando ele se fosse embora. Mandou-me guardar o dinheiro e que não tivesse problemas de consciência. Perguntei-lhe o que ele queria dizer, e a resposta foi a seguinte: "Não me deve nada Sir Clifford, portanto não me paga nada. Se tem algo mais a dizer, diga". Por agora é tudo quanto se passa. A mulher foi-se embora, ninguém sabe para onde. Mas se volta a aparecer em Tevershall vai para a cadeia. E disseram-me que tem muito medo da cadeia, porque sabe que a merece. (230)



Além de um romance sobre o desejo e a redescoberta do corpo, O Amante de Lady Chatterley é também uma crítica contundente à modernidade industrial e às suas consequências espirituais. D. H. Lawrence contrapõe duas visões de mundo: a de Clifford, que simboliza a mente mecanizada, racional e distante das emoções, e a de Connie, que busca o contato vital com o corpo, com a natureza e com o amor. Essa oposição reflete o conflito central da época — entre o progresso material e a perda da sensibilidade humana.

Último romance do autor, O amante de lady Chatterley foi banido em seu lançamento, em 1928, e só ganhou sua primeira edição oficial na Inglaterra em 1960, quando a editora Penguin enfrentou um processo de obscenidade para defender o livro. Àquela altura, já não espantava mais os leitores o uso de "palavras inapropriadas" e as descrições vivas e detalhadas dos encontros sexuais de Constance Chatterley e Oliver Mellors. O que sobressaía era a força literária de Lawrence e a capacidade de capturar uma sociedade em transição.

Esta edição inclui o texto "A propósito de O amante de lady Chatterley", em que Lawrence comenta a controvérsia em torno do livro e justifica suas intenções literárias, e ainda uma introdução de Doris Lessing, vencedora do prêmio Nobel de literatura em 2007. Um apêndice e notas explicativas situam o leitor na geografia das Midlands e no vasto contexto social e político no qual a trama está inserida.




Fontes:

wikipedia.org
google.com
livrosemresumo.com.br
skoob.com.br
resumodelivro.net
fernandobatista89.wordpress.com/w

segunda-feira, 11 de maio de 2026



As baleias não choram - D.H. Lawrence











David Herbert Lawrence ou D. H. Lawrence (11.09.1885 - 02.03.1930) foi um escritor inglês, cuja carreira abrangeu vários gêneros, incluindo romance, poesia, teatro e crítica literária. Suas obras modernistas exploraram a modernidade, a alienação social e a industrialização, ao mesmo tempo em que exaltavam a sexualidade e a vitalidade.






O poema as baleias não choram é um dos mais famosos do escritor, que também escreveu romances como Mulheres Apaixonadas e o Amante de Lady Chatterley.





Whales weep Not !
hey say the sea is cold, but the sea contains
the hottest blood of all, and the wildest, the most urgent.

All the whales in the wider deeps, hot are they, as they urge
on and on, and dive beneath the icebergs.
The right whales, the sperm-whales, the hammer-heads, the killers
there they blow, there they blow, hot wild white breath out of
the sea!

And they rock, and they rock, through the sensual ageless ages
on the depths of the seven seas,
and through the salt they reel with drunk delight
and in the tropics tremble they with love
and roll with massive, strong desire, like gods.
Then the great bull lies up against his bride
in the blue deep bed of the sea,
as mountain pressing on mountain, in the zest of life:
and out of the inward roaring of the inner red ocean of whale-blood
the long tip reaches strong, intense, like the maelstrom-tip, and
comes to rest
in the clasp and the soft, wild clutch of a she-whale's
fathomless body.

And over the bridge of the whale's strong phallus, linking the
wonder of whales
the burning archangels under the sea keep passing, back and
forth,
keep passing, archangels of bliss
from him to her, from her to him, great Cherubim
that wait on whales in mid-ocean, suspended in the waves of the
sea
great heaven of whales in the waters, old hierarchies.

And enormous mother whales lie dreaming suckling their whale-
tender young
and dreaming with strange whale eyes wide open in the waters of
the beginning and the end.

And bull-whales gather their women and whale-calves in a ring
when danger threatens, on the surface of the ceaseless flood
and range themselves like great fierce Seraphim facing the threat
encircling their huddled monsters of love.
And all this happens in the sea, in the salt
where God is also love, but without words:
and Aphrodite is the wife of whales
most happy, happy she!

and Venus among the fishes skips and is a she-dolphin
she is the gay, delighted porpoise sporting with love and the sea
she is the female tunny-fish, round and happy among the males
and dense with happy blood, dark rainbow bliss in the sea.









"As Baleias não Choram!" de D.H. Lawrence


Diz-se que o mar é frio, mas o mar contém
o sangue mais vivo, quente e impetuoso.


Nos grandes abismos são quentes todas as baleias,
quando se agitam
sem descanso e mergulham sob os icebergs.
As verdadeiras baleias, cheias de sémen, com as cabeças
em forma de martelo, prontas a matar,
ei-las lançando do mar os seus jactos violentos, quentes
e brancos.


E balançando-se, balançando-se ao longo das idades sem
tempo da sensualidade,
nas profundidades dos sete mares,
vacilam através das águas salgadas com um prazer
embriagador,
estremecem de amor sob os trópicos
e caminham pesadamente com um desejo maciço e
poderoso, como deuses.
Então o grande touro estende-se sobre a sua noiva
através do abismo azul do mar,
montanha sobre montanha na voluptuosidade da vida:
para além do íntimo rumor do oceano vermelho e oculto
do seu sangue
estende-se a longa ponta do desejo, forte e imensa como
um redemoinho, até repousar
na união, o suave e selvagem encontro do corpo
insondável da baleia fêmea.


E sobre a ponte fálica poderosa, unindo o prodígio das
baleias,
arcanjos em fogo submersos no mar demoram-se
a passar,
de um para o outro lado, arcanjos da felicidade
que vão dele para ela e dela para ele, grandes Querubins
que os acompanham no seio do oceano, suspensos nas
ondas do mar,
grande céu das baleias entre as águas, antigas
hierarquias.


E as enormes baleias mães sonham estendidas, ao
aleitarem as suas crias,
sonham com os seus estranhos e grandes olhos abertos
nas águas do princípio e do fim.


As baleias-touros reúnem as fêmeas e os filhos-bezerros
num círculo
quando o perigo os ameaça, à superficie das marés
incessantes,
e alinham-se como grandes Serafins ferozes, ao
defrontarem o perigo,
rodeando o rebanho dos seus monstros de amor.
E toda esta felicidade no mar, entre a água salgada
onde Deus é também amor, mas sem palavras,
e é Afrodite a esposa das baleias,
feliz, plenamente feliz;
Vénus salta entre os peixes e torna-se a fêmea do delfim,
ela, a graciosa e alegre marsuína brincando com o amor
e o mar,
a fêmea do atum redonda e feliz entre os machos,
pesada com o seu sangue cheio de delícia, obscura
felicidade de um arco-íris no mar.












Fontes:


poets.org
bibliofeira.com
mypoeticside.com
amontanhamagica.blogspot.com
wikipedia.org
google.com

sexta-feira, 8 de maio de 2026


O estrangeiro de Albert Camus





A narrativa começa com a morte da mãe de Meursault, e sua reação fria e indiferente ao evento surpreende todos ao seu redor. Conforme a trama se desenrola, Meursault é arrastado para um assassinato casual e inexplicável, cometido sob o sol escaldante. O julgamento subsequente coloca em foco não apenas o crime, mas também a atitude existencialista de Meursault perante a vida.

¨Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Tomo o autocarro das duas horas e chego lá à tarde. Assim, posso passar a noite a velar e estou de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de folga ao meu chefe e, com um pretexto destes, ele não me podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe "A culpa não é minha". Não respondeu. Pensei então que não devia ter dito estas palavras.¨ (p.3)





¨Quis desligar imediatamente, pois sei que o chefe não gosta que estejamos ao telefone. Mas Raimundo pediu-me para esperar e disse que me poderia ter transmitido o convite à noite, mas me queria avisar de outra coisa. Fora seguido durante todo o dia por um grupo de Árabes entre os quais estava o irmão da sua antiga amante. "Se os vires esta noite perto da nossa casa, avisa-me". Respondi que estava combinado. Pouco depois o chefe mandou -me chamar e fiquei aborrecido porque pensei que me ia dizer para telefonar menos e trabalhar mais. Não era nada disso. Declarou que me ia falar num projeto ainda muito vago. Queria apenas saber a minha opinião sobre o assunto. Tencionava instalar um escritório em Paris, para tratar diretamente com as grandes companhias e perguntou-me se eu estava disposto a ir. Poderia assim viver em Paris e viajar durante parte do ano. "Você ainda é novo e creio que essa vida lhe agradaria". Disse que sim, mas que no fundo me era indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em todos os casos, todas as vidas se equivaliam e que a minha, aqui, não me desagradava.¨ - O estrangeiro - Albert Camus p.30



O estrangeiro é um dos livros da trilogia do absurdo, de Albert Camus. O livro conta a história de Mersault, um homem que vive completamente alheio à importância das coisas ao seu redor. O protagonista é indiferente a tudo, sendo que uma das palavras mais usadas por ele é: “tanto faz”. Albert Camus desenvolve uma história simples, escrita em frases curtas, evidenciando conceitos segundo o qual o homem é livre e seus atos são responsáveis por seu destino.

Meursault, é descrito como “um cidadão da França, homem do Mediterrâneo, um homem que dificilmente compartilha da cultura mediterrânea tradicional”. Semanas após o funeral de sua mãe, ele mata um homem árabe na Argel francesa, que estava envolvido em um conflito com um dos vizinhos de Meursault. Mersault é julgado e condenado à morte. A história é dividida em duas partes, apresentando a visão narrativa em primeira pessoa de Mersault antes e depois do assassinato, respectivamente.



No dia seguinte ao enterro da mãe, Mersault foi à praia. Lá, conheceu Marie, uma linda mulher por quem nutriu uma ardente paixão. Tiveram relações naquela mesma tarde, e à noite foram ao cinema assistir um filme. Com a poeira do enterro de sua mãe ainda preso no sapato, Mersault seguiu sua vida. Mesmo compartilhando de momentos carinhosos, quando perguntado se amava Marie, Mersault respondia que não. Ele era muito distante para entender e assumir qualquer sentimento.

Então, Mersault foi chamado por seu vizinho Raymond para ajudá-lo a resolver um problema. A mulher de Raymond o havia traído, e ele queria se vingar. Pediu a Mersault para escrever uma carta chamando-a de volta. Como combinado, a mulher de Raymond retornou. Raymond, então, espancou-a de forma contundente. Dias após o ocorrido, Raymond avisou a Mersault que o irmão de sua esposa o estava seguindo, junto a outros árabes.


“Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso.” (p.43)

Mersault é preso pelo assassinato. 

¨Logo a seguir à minha prisão, fui interrogado por várias vezes. Mas tratava-se de interrogatórios de identidade, que não duraram muito tempo. A primeira vez, no comissariado, o meu caso parecia não interessar a ninguém. Oito dias depois, ao contrário,. O juiz de instrução olhou-me com curiosidade. Mas, para começar, perguntou-me apenas o nome e a morada, a profissão, a data e o local do nascimento. Depois quis saber se eu já escolhera advogado. Respondi que não e perguntei-lhe se era absolutamente necessário ter advogado. "Por que?", disse ele. Repliquei, afirmando que achava o meu caso muito simples. Sorriu, dizendo: "É uma opinião. No entanto, a lei é a lei. Se o senhor não quer quem o defenda, nós nomeamos automaticamente advogado". Achei que era muito cômodo a justiça encarregar-se desses pormenores.¨(p.43)





O julgamento de Mersault é um ponto marcante do livro. Acusado de assassinato, foi proposto o atenuante de que era um bom homem, de que havia perdido a mãe recentemente, e que havia se defendido de um possível ataque do árabe. A mente de Mersault passeava pelo calor do tribunal, pelas anotações dos jornalistas e pelo teatro produzido pelos advogado de defesa e pelo promotor. De forma paradoxal, foi o testemunho de Marie que agravou o caso de Mersault.

Apesar dos atenuantes, os agravantes foram muito mais fortes: ele não havia aberto o caixão da mãe; enterrou-a sem remorsos; no dia seguinte se envolveu com Marie, teve relações com ela e foi ao cinema assistir um filme de comédia. Mersault, segundo a promotoria, não tinha escrúpulos, remorso ou mesmo caráter, para evitar o crime, e matou como se essa ação fosse simples e banal. Resultado: Mersault foi sentenciado à morte. Seria guilhotinado em praça pública.


“Meus senhores, um dia depois da morte da sua mãe, este homem tomava banhos de mar, iniciava relações com uma amante e ia a rir às gargalhadas num filme cômico.” (p.68)



Mersault ainda teve chance, antes de morrer, de pedir perdão a Deus pelos seus pecados. Mas Mersault não acreditava em Deus, e não havia arrependimento em seu coração. O que havia feito, estava feito. Sem rancor ou ódio.


¨Mas pouco depois levantou bruscamente a cabeça e olhou-me de frente: "Porque recusa as minhas visitas?" Respondi que não tinha fé. Quis saber se tinha a certeza e eu respondi que não valia a pena fazer-me essa pergunta. Deixou-se cair para trás e encostou-se à parede, as mãos postas em cima das coxas. Quase sem ter o ar de me falar, observou que às vezes nos julgávamos certos de alguma coisa quando, na realidade, não tínhamos certeza nenhuma.¨(p.80)


Mersault é um personagem icônico da literatura. Um homem que traz consigo a ambiguidade da existência humana. Capaz de se relacionar ardentemente com Marie e dizer que não a ama e que não quer se casar. Um homem que não ia ao cinema, mas que foi no dia seguinte ao enterro da mãe. Colocou a mãe em um asilo por não suportá-la em casa, mas que se sentia indiferente com a promoção que recebeu para trabalhar em Paris. Um home livre, ou escravo de sua apatia?

Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.¨ (p.85)




As loucuras do dia-a-dia, o corre-corre e a busca do sentido para as coisas e acontecimentos já são indícios do absurdo. O homem cria uma rotina de vida, uma monotonia e acaba deixando levar-se pelo absurdo, perde o sentido da sua existência, passando a não dar mais importância aos fatos e acontecimentos em seu trabalho, com os amigos, na família…tudo se torna comum, rotineiro.

Outro ponto que ilustra o absurdo é o fato do homem já não conseguir mais dar conta dos acontecimentos e tudo lhe foge da percepção e ele mesmo constata que o mundo não tem sentido nem razão, e que a vida é absurda e fantasiosa.

Buscar valorizar e criar sonhos para o futuro é uma forma de querer sair do absurdo, mas é necessário também criar coragem e buscar inovações e outros caminhos para as atividades do dia-a-dia.


Fontes:

ispsn.org
bibliotecapubliga.mg.gov.br
casadoestudo.com
resumodelivro.net
resenhaalacarte.com.br
google.com

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