O estrangeiro de Albert Camus
A narrativa começa com a morte da mãe de Meursault, e sua reação fria e indiferente ao evento surpreende todos ao seu redor. Conforme a trama se desenrola, Meursault é arrastado para um assassinato casual e inexplicável, cometido sob o sol escaldante. O julgamento subsequente coloca em foco não apenas o crime, mas também a atitude existencialista de Meursault perante a vida.
¨Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um
telegrama do asilo:
"Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames".
Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.
O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel.
Tomo o autocarro das duas horas e chego lá à tarde.
Assim, posso passar a noite a velar e estou de volta amanhã à noite.
Pedi dois dias de folga ao meu chefe e, com um pretexto destes, ele
não me podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito.
Cheguei mesmo a dizer-lhe "A culpa não é minha". Não respondeu.
Pensei então que não devia ter dito estas palavras.¨ (p.3)
¨Quis desligar imediatamente, pois sei que o chefe não gosta que estejamos ao telefone. Mas Raimundo pediu-me para esperar e disse que me poderia ter transmitido o convite à noite, mas me queria avisar de outra coisa. Fora seguido durante todo o dia por um grupo de Árabes entre os quais estava o irmão da sua antiga amante. "Se os vires esta noite perto da nossa casa, avisa-me". Respondi que estava combinado. Pouco depois o chefe mandou -me chamar e fiquei aborrecido porque pensei que me ia dizer para telefonar menos e trabalhar mais. Não era nada disso. Declarou que me ia falar num projeto ainda muito vago. Queria apenas saber a minha opinião sobre o assunto. Tencionava instalar um escritório em Paris, para tratar diretamente com as grandes companhias e perguntou-me se eu estava disposto a ir. Poderia assim viver em Paris e viajar durante parte do ano. "Você ainda é novo e creio que essa vida lhe agradaria". Disse que sim, mas que no fundo me era indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em todos os casos, todas as vidas se equivaliam e que a minha, aqui, não me desagradava.¨ - O estrangeiro - Albert Camus p.30
O estrangeiro é um dos livros da trilogia do absurdo, de Albert Camus. O livro conta a história de Mersault, um homem que vive completamente alheio à importância das coisas ao seu redor. O protagonista é indiferente a tudo, sendo que uma das palavras mais usadas por ele é: “tanto faz”. Albert Camus desenvolve uma história simples, escrita em frases curtas, evidenciando conceitos segundo o qual o homem é livre e seus atos são responsáveis por seu destino.
Meursault, é descrito como “um cidadão da França, homem do Mediterrâneo, um homem que dificilmente compartilha da cultura mediterrânea tradicional”. Semanas após o funeral de sua mãe, ele mata um homem árabe na Argel francesa, que estava envolvido em um conflito com um dos vizinhos de Meursault. Mersault é julgado e condenado à morte. A história é dividida em duas partes, apresentando a visão narrativa em primeira pessoa de Mersault antes e depois do assassinato, respectivamente.
No dia seguinte ao enterro da mãe, Mersault foi à praia. Lá, conheceu Marie, uma linda mulher por quem nutriu uma ardente paixão. Tiveram relações naquela mesma tarde, e à noite foram ao cinema assistir um filme. Com a poeira do enterro de sua mãe ainda preso no sapato, Mersault seguiu sua vida. Mesmo compartilhando de momentos carinhosos, quando perguntado se amava Marie, Mersault respondia que não. Ele era muito distante para entender e assumir qualquer sentimento.
Então, Mersault foi chamado por seu vizinho Raymond para ajudá-lo a resolver um problema. A mulher de Raymond o havia traído, e ele queria se vingar. Pediu a Mersault para escrever uma carta chamando-a de volta. Como combinado, a mulher de Raymond retornou. Raymond, então, espancou-a de forma contundente. Dias após o ocorrido, Raymond avisou a Mersault que o irmão de sua esposa o estava seguindo, junto a outros árabes.
“Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso.” (p.43)
Mersault é preso pelo assassinato.
¨Logo a seguir à minha prisão, fui interrogado por várias vezes. Mas
tratava-se de interrogatórios de identidade, que não duraram muito
tempo. A primeira vez, no comissariado, o meu caso parecia não
interessar a ninguém. Oito dias depois, ao contrário,. O juiz de
instrução olhou-me com curiosidade.
Mas, para começar, perguntou-me apenas o nome e a morada,
a profissão, a data e o local do nascimento. Depois quis saber se eu
já escolhera advogado. Respondi que não e perguntei-lhe se era
absolutamente necessário ter advogado. "Por que?", disse ele.
Repliquei, afirmando que achava o meu caso muito simples.
Sorriu, dizendo: "É uma opinião. No entanto, a lei é a lei. Se o
senhor não quer quem o defenda, nós nomeamos
automaticamente advogado". Achei que era muito cômodo a justiça
encarregar-se desses pormenores.¨(p.43)
O julgamento de Mersault é um ponto marcante do livro. Acusado de assassinato, foi proposto o atenuante de que era um bom homem, de que havia perdido a mãe recentemente, e que havia se defendido de um possível ataque do árabe. A mente de Mersault passeava pelo calor do tribunal, pelas anotações dos jornalistas e pelo teatro produzido pelos advogado de defesa e pelo promotor. De forma paradoxal, foi o testemunho de Marie que agravou o caso de Mersault.
Apesar dos atenuantes, os agravantes foram muito mais fortes: ele não havia aberto o caixão da mãe; enterrou-a sem remorsos; no dia seguinte se envolveu com Marie, teve relações com ela e foi ao cinema assistir um filme de comédia. Mersault, segundo a promotoria, não tinha escrúpulos, remorso ou mesmo caráter, para evitar o crime, e matou como se essa ação fosse simples e banal. Resultado: Mersault foi sentenciado à morte. Seria guilhotinado em praça pública.
“Meus senhores, um dia depois da morte da sua mãe, este homem tomava banhos de mar, iniciava relações com uma amante e ia a rir às gargalhadas num filme cômico.” (p.68)
Mersault ainda teve chance, antes de morrer, de pedir perdão a Deus pelos seus pecados. Mas Mersault não acreditava em Deus, e não havia arrependimento em seu coração. O que havia feito, estava feito. Sem rancor ou ódio.
¨Mas pouco depois levantou bruscamente a cabeça e olhou-me
de frente: "Porque recusa as minhas visitas?" Respondi que
não tinha fé. Quis saber se tinha a certeza e eu respondi que
não valia a pena fazer-me essa pergunta. Deixou-se cair para trás e
encostou-se à parede, as mãos postas em cima das coxas.
Quase sem ter o ar de me falar, observou que às vezes
nos julgávamos certos de alguma coisa quando, na realidade,
não tínhamos certeza nenhuma.¨(p.80)
Mersault é um personagem icônico da literatura. Um homem que traz consigo a ambiguidade da existência humana. Capaz de se relacionar ardentemente com Marie e dizer que não a ama e que não quer se casar. Um homem que não ia ao cinema, mas que foi no dia seguinte ao enterro da mãe. Colocou a mãe em um asilo por não suportá-la em casa, mas que se sentia indiferente com a promoção que recebeu para trabalhar em Paris. Um home livre, ou escravo de sua apatia?
Também lá, em redor desse asilo onde as vidas
se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto
da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo
reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela.
Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande
cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante
desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela
primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido
comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que
tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me
desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que
os espectadores me recebessem com gritos de ódio.¨ (p.85)
As loucuras do dia-a-dia, o corre-corre e a busca do sentido para as coisas e acontecimentos já são indícios do absurdo. O homem cria uma rotina de vida, uma monotonia e acaba deixando levar-se pelo absurdo, perde o sentido da sua existência, passando a não dar mais importância aos fatos e acontecimentos em seu trabalho, com os amigos, na família…tudo se torna comum, rotineiro.
Outro ponto que ilustra o absurdo é o fato do homem já não conseguir mais dar conta dos acontecimentos e tudo lhe foge da percepção e ele mesmo constata que o mundo não tem sentido nem razão, e que a vida é absurda e fantasiosa.
Buscar valorizar e criar sonhos para o futuro é uma forma de querer sair do absurdo, mas é necessário também criar coragem e buscar inovações e outros caminhos para as atividades do dia-a-dia.
Fontes:
ispsn.org
bibliotecapubliga.mg.gov.br
casadoestudo.com
resumodelivro.net
resenhaalacarte.com.br
google.com
