Na manhã de 19 de outubro de 1934, o jornalista gaúcho Apparício Torelly (1895-1971) saía de casa em Copacabana, no número 188 da rua Saint-Romain, rumo ao Centro, onde trabalhava, quando seu carro, um Chrysler, foi interceptado por dois veículos. Cinco homens, alguns deles armados, sequestraram o editor do Jornal do Povo.
"Tem família?", perguntou um dos sequestradores, já com os carros batendo em retirada. "Isso não vem ao caso", respondeu o sequestrado. "Nem é da conta dos senhores". "Escreva despedindo-se", continuou o sujeito. "É um favor que lhe prestamos". "Dispenso-o", retrucou a vítima
Logo, Torelly descobriu que os homens que se diziam policiais eram, na verdade, oficiais da Marinha. Estavam indignados com a publicação de um folhetim sobre a Revolta da Chibata, liderada pelo marinheiro João Cândido (1880-1969), o Almirante Negro. Como Torelly se recusou a suspender a publicação, que denunciava os maus-tratos na Marinha, foi espancado.
Os sequestradores cortaram seus cabelos, furaram os pneus de seu carro e o abandonaram, quase nu, num local deserto. Na tarde daquele mesmo dia, uma sexta-feira, depois de voltar para a redação, Torelly pendurou, na porta de sua sala, uma placa com os dizeres: "Entre sem bater".
Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, também conhecido por Apporelly e pelo falso título de nobreza de Barão de Itararé (Rio Grande , 29 de janeiro de 1895 - Rio de Janeiro, 27 de novembro de 1971), foi um jornalista, escritor e pioneiro no humorismo político brasileiro.
Sua biografia tem algumas imprecisões, como o local de seu nascimento. Em alguns documentos aparece como local de nascimento, o Uruguai. Segundo ele, sua mãe queria que ele nascesse naquele país e a caminho de lá, ele nasceu no meio do caminho.
Em 1918, com 23 anos, durante suas férias, sofre um AVC quando andava na fazenda de um tio. Abandona o curso de Medicina no quarto ano e começa a escrever. Publica sonetos e artigos em jornais e revistas, como a Revista Kodak, "A Máscara" e "Maneca".
À respeito de seu alcunha, ele diz: `Em 1930, Getúlio vinha do Rio Grande do Sul, para tomar o poder. Era previsto uma forte resistência dos opositores paulista na cidade de Itararé, divisa de São Paulo e Paraná. Era tido como a batalha das batalhas. No entanto, a grande batalha e não aconteceu.
Aparício, então, se autodenominou Duque de Itararé, depois rebaixo para Barão de Itararé, aquele que foi sem nunca ter sido.
Torelly foi um dos fundadores da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Não participou da Rebelião de 1935, conhecida como “Intentona Comunista”, mas foi preso, tendo sido companheiro de cadeia de Graciliano Ramos, que faz menção a este fato em Memórias do Cárcere. “A Manha deixou de circular e eu com ela”, contava o humorista. Solto, relançou o jornal.
Com a redemocratização, candidatou-se a vereador pelo PCB no Rio de Janeiro. Foi eleito em oitavo lugar com o lema de campanha “Mais água e mais leite e menos água no leite!”. Seu mandato foi dedicado às causas populares, a exemplo da defesa dos indígenas e do voto dos analfabetos. Era a atração das sessões. Testemunho de Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do PCB: “O Barão, com seu espírito, não só fez a Câmara rir, como as lavadeiras e os trabalhadores. As favelas suspendiam as novelas para ouvir as sessões da Câmara, que eram transmitidas pelo rádio”.
Aparício sempre foi eloquente e fez chacota, desde de menino. A história dele e seu professor virou uma anedota clássica:
O Contexto: Enquanto estudava em um internato jesuíta em São Leopoldo (RS), Apparício Torelly era conhecido por ser um aluno rebelde e genial.
A Anedota:
Durante um exame final de português, o Professor Vergara, querendo testar a conjugação de um verbo ou frase, colocou o aluno em uma situação difícil. O Barão, com sua rapidez de raciocínio, disparou:
"O burro vergara ao peso da carga".
"O Barão é daqueles que começam uma partida do zero. É como se tivesse inventado as regras do jogo", afirma o jornalista Cláudio Figueiredo, autor da biografia Entre Sem Bater - A vida de Apparício Torelly - O Barão de Itararé (2012). "Foi muito mais do que 'frasista'. Foi um humorista revolucionário, anárquico, inovador. Colocar o foco sobre um único aspecto de sua obra seria como julgar Pelé por sua atuação no Cosmos, já no seu fim de carreira".
Fontes:
wikipedia.org
google.com
todamateria.com
ebiografia.com
google.com
averdade.org.br
enciclopeida.itaucultural.org.br
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