Pagu
Pagu
Vamos falar hoje de Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu, (São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 - Santos, 12 de dezembro de 1962) foi uma escritora, poetisa, encenadora, tradutora, desenhista, cartunista, jornalista e militante comunista. Teve expressivo destaque no movimento modernista iniciado em 1922, embora não tivesse participado da Semana de Arte Moderna, tendo na época apenas doze anos de idade. Militante comunista, foi presa por motivações políticas.
Patrícia virou Pagu, Pagu virou Patrícia e essa dualidade acho que sempre esteve presente em suas muitas vidas.
Ela não parou de se revelar e se reinventar por toda sua vida. Era uma mulher do século passado que hoje seria moderna, pós-moderna. Seus ideais continuam atuais, mais atuais do que nunca.
Ela procurava, freneticamente, o que lhe faltava: a completude que todos perdemos e pela qual ansiamos. Afinal, enquanto uma parte de nós busca a liberdade de ser um indivíduo pleno, a outra parte está sempre à procura de alguém, alguma causa à qual entregar a própria liberdade.
Patrícia Galvão tem uma biografia extraordinária. Entregou-se de corpo e alma em várias frentes culturais e políticas, movida por ideais como a justiça social e a transformação da pessoa por meio da cultura. Ainda lutamos por isso, não acham?
De musa modernista, amor de Oswald de Andrade, até seus últimos anos em Santos, Pagu passou por sofrimentos em presídios políticos, pela militância comunista, e depois dissidência por essa mesma política, por muitas viagens e inúmeras tentativas de ser feliz com seus sonhos.
Um dos períodos de maior intensidade foi justamente sua militância cultural. Quando se casou com o jornalista Geraldo Ferraz e veio para Santos, na década de 50, manteve intensa atividade como cronista e crítica literária, além de se envolver cada vez mais com teatro amador, sua paixão.
Um peixe
Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.
- Patrícia Galvão (Pagu)
Muitas dores físicas e mentais acompanharam sua trajetória. A mulher libertária e suas buscas talvez pareçam ilusórias para quem acredita na ditadura do imperativo do gozo, individualista e hedonista.
Ela ainda tem muito a nos dizer. Uma fala que busca raízes no terreno incerto e perigoso dos atos, das práticas, da existência, sempre como síntese imperfeita. E, assim, nos faz companhia na luta, crença, valores, paixão, desejo e emoção.
Pagu acreditava na vida que flui, na arte que permanece. Eu também. Entre o que passa e o que fica, os homens traçam a sua grandeza e a sua dignidade. Falar de Pagu, mais uma vez, é evocar, nessa paisagem cinzenta em que vivemos, a esperança, a bondade, o amor, o esforço generoso que nunca buscou recompensa.
Com 15 anos de idade, Pagu já colaborava com o Brás Jornal, com o pseudônimo de Patsy. Em 1928, com dezoito anos, concluiu o curso de professora na Escola Normal de São Paulo. Nesse mesmo ano, conheceu o casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, que haviam fundado o Movimento Antropófago e se integrou a esse Movimento.
Em 1930 causou um escândalo na sociedade conservadora da época, quando Oswald de Andrade se separou de Tarsila e passou a viver com Pagu, grávida de seu primeiro filho. No mesmo ano nasceu Rudá de Andrade.
Oswald de Andrade
Três meses após o parto, Pagu viajou pra Buenos Aires para um festival de poesia. Lá conheceu Luís Carlos Prestes e voltou entusiasmada com as ideias marxistas. Logo depois, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, junto com Oswald de Andrade.
O apelido de “Pagu” a escritora recebeu do poeta Raul Bopp, que por engano pensou que seu nome fosse Patrícia Goulart, e para ela escreveu o poema “Coco de Pagu”. Em 1931 intensificaram-se suas atividades no Partido Comunista. Junto com Oswald fundou o jornal “O Homem do Povo”, que apoiava o grupo da esquerda revolucionária. Ao participar de uma greve de estivadores em Santos, Pagu foi presa pela polícia do governo de Getúlio Vargas.
Em 1933, Pagu publicou “Parque Industrial”, sob o pseudônimo de Mara Lobo. A obra é uma narrativa urbana sobre a vida das operárias da cidade de São Paulo. Nesse mesmo ano, iniciou uma viagem pelo mundo, como correspondente de vários jornais, deixando Oswald e o filho. Visitou os Estados Unidos, o Japão, a China e a União Soviética.
Em 1935, filiou-se ao partido comunista da França. Foi presa em Paris como comunista estrangeira. Com identidade falsa voltou ao Brasil. Separou-se do marido e ao retornar às suas atividades jornalísticas foi novamente presa e torturada pelas forças da ditadura, passando cinco anos na cadeia.
Em 1940, ao sair da prisão, Pagu tentou o suicídio, rompeu com o Partido Comunista e passou a defender o socialismo. Logo depois, ingressou na redação do jornal “A Vanguarda Socialista”. Em 1945 casou-se com o jornalista Geraldo Ferraz e dessa união nasceu seu segundo filho Geraldo Galvão Ferraz.
Em 1946 passou a colaborar com diversos jornais, entre eles A Manhã, O Jornal, A Noite e o Diário de São Paulo. Com o pseudônimo de “King Shelter” escreveu contos de suspense para a revista “Detetive”, dirigida por Nelson Rodrigues.
O casal se mudou para a cidade de Santos, onde Geraldo foi redator do jornal A Tribuna de Santos. Nas eleições de 1950, Pagu tentou sem sucesso uma vaga para deputada estadual. Em 1952 passou a frequentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo.
Pagu dedicou-se especialmente no incentivo a grupos amadores de teatro e levou seus espetáculos para Santos. Liderou a campanha para a construção do Teatro Municipal, além de fundar a Associação dos Jornalistas Profissionais. Criou também a União do Teatro Amador de Santos.
Doença e morte
Em 1962, Pagu voltou à Paris para o tratamento de um câncer. Sem êxito, tentou novamente o suicídio. Já muito doente, publicou no jornal “A Tribuna”, o poema Nothing:
Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um para brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipoias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.
A escritora e jornalista Pagu é um símbolo de independência feminina na cultura brasileira. Sem necessariamente levantar uma bandeira pela igualdade de gênero, ela tinha uma atitude que não era comum para as mulheres burguesas do início do século XX. Portanto, é lembrada pelo seu comportamento livre, o qual escandalizava a sociedade da época.
Pagu faleceu em Santos, São Paulo, no dia 12 de dezembro de 1962.
Fontes:
wikipedia.org
google.com
ebiografia.com
pagu.com.br
marjolobo.blogspot.com
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