O amante de Lady Chatterley - D.H. Lawrence
O romance foi publicado em 1928 e causou muita controvérsia, sendo proibido em várias países.
Esta era, mais ou menos, a posição de Constance Chatterley. A guerra tinha sido como um teto que lhe caísse em cima, e ela compreendera que seria necessário viver e aprender. Casara-se com Clifford Chatterley em 1917, numa altura em que ele estivera na Inglaterra a gozar um mês de licença. Tiveram uma lua-de-mel de um mês.
Regressara depois à Flandres, para voltar outra vez à Inglaterra, seis meses mais tarde, mais ou menos em bocados. Constance, a mulher, tinha então vinte e três anos e ele vinte e nove. O apego dele à vida foi maravilhoso. Não morreu e os bocados parecerem voltar a juntar-se outra vez. Durante dois anos andou pelas mãos dos médicos. A seguir foi dado como curado e pôde voltar de novo à vida corri a parte inferior do corpo, da cintura para baixo, paralisada para sempre. Estava-se em 1920. Clifford e Constance voltaram ao lar deles, ao lar da família, Wraghy. O pai de Clifford falecera, ele era agora um baronete, Sir Clifford, e Constance era Lady Chatterley. (p.4)
Constance Chatterley é uma mulher jovem, sensível e inteligente, casada com Clifford Chatterley, um homem que, após retornar da guerra, ficou paralítico e preso a uma cadeira de rodas. Apesar da tragédia, o casal manteve o casamento, sustentado por laços de amizade e companheirismo. No entanto, a ausência de intimidade física começou a pesar sobre Connie. Com o tempo, ela passou a sentir uma profunda carência de contato carnal e percebeu que algo essencial faltava em sua vida.
Buscando alívio para essa falta, Connie se envolve com Michaelis, um amigo de seu marido. No início, o encontro físico a satisfaz apenas parcialmente: ela aceita o prazer rápido de Michaelis e, só depois, tenta alcançar o seu próprio. Mas logo se decepciona, percebendo que ele é como tantos outros homens — egoísta, centrado em si mesmo, incapaz de compreender suas necessidades emocionais e físicas.
Obviamente que Michaelis não era inglês, apesar dos alfaiates,
chapeleiros, barbeiros e sapateiros do melhor bairro de Londres. Não, era
óbvio que ele não era inglês, tinha uma cara fora do comum, pálida e uniforme,
e um rancor também fora do comum. Mostrava ressentimento e rancor, e isso
era evidente para qualquer cavalheiro de genuíno sangue inglês, que nunca
permitiria que tais sentimentos transparecessem. Pobre Michaelis, tinha sido
tão maltratado, que ainda não perdera um certo ar de cauda entre as pernas.
Tinha aberto o seu caminho por puro instinto e total ousadia até à cena, à
boca da cena, com as suas peças. Tinha surpreendido o público e pensara que
os maus dias tinham acabado. Mas não, nunca acabariam. De certo modo fazia
os possíveis por ser maltratado, porque se imiscuía num meio a que não
pertencia: a alta sociedade inglesa. (p.19)
Enquanto isso, Clifford, que não percebe o que acontece com sua esposa, sugere algo inusitado: que Connie tenha um filho com outro homem, contanto que não haja amor envolvido.
Essa representação estaria bem na obra de Nelson Rodrigues, onde a perversão atingia níveis inimagináveis.
Constance, a mulher de Clifford, tinha um ar de rapariga de campo,
corada, com cabelo castanho e suave, um corpo robusto e movimentos lentos
carregados de uma invulgar energia. Tinha uns olhos grandes e sonhadores e
uma voz suave e doce. Parecia ter acabado de chegar da sua aldeia natal, mas
não era. O pai de Constance era o velho Sir Malcolm Reid, que fora outrora
bem conhecido por pertencer à Academia Real, a mãe fora um dos distintos
membros da Sociedade Fabiana1
do período florescente, mais exactamente do
período pré-rafaelita. Criadas entre artistas e socialistas cultos, Constance e
a irmã, Hilda, tinham tido o que se poderá chamar uma educação estética, mas
inconvencional. Haviam sido levadas, por princípios artísticos, a Paris,
Florença e Roma; e, com outro, haviam sido levadas à cidade da Haia e a
Berlim, a grandes convenções socialistas, onde os oradores falavam em todas
as línguas civilizadas e onde ninguém se sentia intimidado. (p.5)
O ponto de virada ocorre quando Constance conhece Oliver Mellors, o guarda-caça da propriedade de Clifford. Mellors é um homem de origem humilde, mas com uma personalidade complexa e profunda, tendo servido como soldado e vivido experiências que o afastaram do mundo aristocrático. A relação que se desenvolve entre Constance e Mellors desafia as normas sociais e as expectativas da época. À medida que o relacionamento avança, ela se entrega a uma paixão que reacende sua vitalidade, o que contrasta drasticamente com a apatia de sua vida anterior ao lado de Clifford.
A paixão entre Constance e Mellors é retratada de maneira crua e sem eufemismos, o que fez o livro ser censurado por muitos anos em vários países, principalmente devido às descrições explícitas de suas interações sexuais. No entanto, Lawrence não se limita a criar uma história de adultério; ele utiliza a relação dos dois personagens como uma metáfora para criticar a sociedade inglesa e a alienação provocada pela crescente industrialização. Mellors, que trabalha como guarda-caça e vive em sintonia com a natureza, representa uma alternativa ao mundo mecanizado e distante de emoções de Clifford, cujas ambições o afastam da realidade concreta do corpo e da natureza.
E fitou-a com olhos estranhamente escuros.
- Queres subir? - perguntou-lhe, numa voz estrangulada.
- Não, aqui não! Agora não! - respondeu ela, num tom de voz pesado e
lento.
No entanto, se ele tivesse insistido, ela teria cedido, porque não tinha
força para lutar contra ele.
Ele voltou a virar a cara, dando a impressão de se ter esquecido que ela
estava ali.
- Quero tocar-te como me tocas - disse ela. - Nunca toquei realmente
o teu corpo.
Ele olhou-a e sorriu de novo.
- Agora? - perguntou.
- Não! Não! Aqui não. Na cabana. Não te importas?
- Como é que te toco?
- Quando me acaricias. Ele voltou a olhá-la e captou o seu olhar denso
e inquieto.
- E gostas quando te acaricio? - perguntou, a sorrir tranquilamente.
- Sim, e tu?
- Oh, eu! - depois mudou o tom de voz. - Sim, sabes sem perguntar.
Era verdade. Connie levantou-se e pegou no chapéu.
- Tenho de me ir embora - disse.
- Tem? - perguntou ele delicadamente. Ela queria que ele a tocasse,
que lhe dissesse qualquer coisa, mas ele não disse nada, apenas esperava
cerimoniosamente. (p.147)
O vínculo físico, inicialmente movido pelo desejo, começa a se tornar mais profundo e íntimo. Lawrence descreve as cenas sexuais com uma delicadeza incomum, evitando a vulgaridade e transformando o erotismo em uma forma de reconexão com o corpo e com a vida. Para Connie, o sexo com Mellors não é apenas prazer, mas uma experiência de plenitude e de reencontro com sua própria natureza, distante da rigidez emocional de seu marido e da artificialidade da sociedade em que vive.
- Estás despida por baixo? - perguntou ele.
- Sim!
- Vou-me despir também. Estendeu os cobertores, pondo um de lado
para fazer de colcha. Ela tirou o chapéu e sacudiu o cabelo. Ele sentou-se,
tirou sapatos e as polainas, e começou a desabotoar as calças de bombazina.
- Deita-te! - disse-lhe, quando já estava em camisa. Ela obedeceu em
silêncio e ele deitou-se ao lado dela, puxou o cobertor para cobrir os dois.
- Cá estamos! - disse ele. Levantou-lhe o vestido até aos seios e
beijou-os suavemente, prendendo os mamilos nos lábios em leves carícias.
- Ah, é bom, é bom - murmurou, esfregando subitamente a aura num
movimento para se aconchegar na sua barriga quente.
Ela abraçou-o sob a camisa, mas sentiu medo, medo daquele corpo
magro, macio e nu, mas que parecia tão forte, medo daqueles músculos
violentos. Ela contraiu-se com medo.
E quando ele disse "é bom, é bom!" algo dentro dela estremeceu, e
qualquer coisa no seu espírito acordou, pronto a resistir. A resistir àquela
terrível intimidade física e a urgência da posse. E o êxtase violento da paixão
não a invadiu. Ficou de mãos inertes no corpo do homem em luta. E, embora
tentasse, não conseguia deixar de observar friamente, distante, o que se
passava; e o movimento das ancas do homem era ridículo, e mais ridículo o
frenesim do pénis até à pequena crise da ejaculação. Sim, aquilo era o amor,
aquele movimento ridículo das nádegas, aquele esmorecimento de um pénis
insignificante e húmido. Era esse o divino amor! Afinal, os modernos tinham
razão em desprezar aquela representação teatral, porque, no fundo, não
passava de uma representação. Tinham razão os poetas ao dizerem que o
Deus que criou o homem teve um humor sinistro em o criar como criatura
dotada de razão e obrigá-lo àquela posição ridícula, e a desejar cegamente aquela representação. (p.148)
Connie viaja para Veneza com sua família e, durante a estadia, descobre que a ex-esposa de Mellors invadiu sua casa, quebrando objetos e espalhando boatos. Clifford fica sabendo do ocorrido e chama Mellors para uma conversa que termina em desentendimento, resultando na demissão do guarda-caça. Connie, então, retorna à Inglaterra e reencontra Mellors em Londres. Juntos, planejam o futuro: Mellors entraria com o pedido de divórcio, enquanto Connie pediria o seu a Clifford, revelando que está grávida de outro homem sem mencionar o nome do amante.
Quando ambos estivessem livres, poderiam finalmente viver juntos. O sexo, nesse momento, sela o compromisso entre os dois. No entanto, Clifford se recusa a conceder o divórcio e exige que Connie continue em sua casa. O romance termina com uma carta de Mellors, na qual ele fala sobre sua nova fase de vida e sobre a esperança de que, um dia, ele e Connie possam se reencontrar e viver plenamente esse amor.
- Oh, não troces dele - disse Connie, ajoelhando-se na cama, pondo os
braços à volta da cintura, de pele branca e delicada, puxando-o para ela de
modo que os seus seios pendentes e oscilantes tocavam a cabeça do falo
excitado e erecto e atingiam as gotas de humidade. Ela abraçou o homem com
mais força.
- Deita-te! Deita-te e deixa-me furar-te! Estava possuído de uma
urgência súbita. Depois de acabarem e de se sentirem ambos de novo
tranquilos, a mulher quis vê-lo outra vez, quis contemplar o mistério do falo.
- E agora está pequeno e macio como um botão de vida disse ela,
pegando no pénis, com a mão. - É lindo! Tão independente e tão estranho! E
tão inocente! E entra em mim tão fundo! Nunca o deves insultar, sabes?
Também me pertence, não é só teu. É meu também. (p. 181)
Paralelamente à trama amorosa, o romance se aprofunda em discussões sociais e filosóficas. Em longos diálogos, Clifford e Connie revelam visões de mundo opostas. Clifford, aristocrata e proprietário de minas de carvão, enxerga o progresso industrial e o avanço do capitalismo como um caminho inevitável, embora desumano. Ele representa a mentalidade racional e mecanizada da Inglaterra moderna — um homem que substitui a vitalidade da vida por ideias e pela ambição de poder.
Perguntei-lhe se lhe seria fácil arranjar outro emprego. Respondeu-me:
"Nada mais fácil, se me está a mandar para a rua". Não levantou qualquer
problema quanto a ir-se embora no fim da próxima semana, e está a ensinar
outro rapaz, Joe Chambers, os segredos do oficio. Disse-lhe que lhe queria
pagar um mês a mais quando ele se fosse embora. Mandou-me guardar o
dinheiro e que não tivesse problemas de consciência. Perguntei-lhe o que ele
queria dizer, e a resposta foi a seguinte: "Não me deve nada Sir Clifford,
portanto não me paga nada. Se tem algo mais a dizer, diga".
Por agora é tudo quanto se passa. A mulher foi-se embora, ninguém
sabe para onde. Mas se volta a aparecer em Tevershall vai para a cadeia. E
disseram-me que tem muito medo da cadeia, porque sabe que a merece. (230)
Além de um romance sobre o desejo e a redescoberta do corpo, O Amante de Lady Chatterley é também uma crítica contundente à modernidade industrial e às suas consequências espirituais. D. H. Lawrence contrapõe duas visões de mundo: a de Clifford, que simboliza a mente mecanizada, racional e distante das emoções, e a de Connie, que busca o contato vital com o corpo, com a natureza e com o amor. Essa oposição reflete o conflito central da época — entre o progresso material e a perda da sensibilidade humana.
Último romance do autor, O amante de lady Chatterley foi banido em seu lançamento, em 1928, e só ganhou sua primeira edição oficial na Inglaterra em 1960, quando a editora Penguin enfrentou um processo de obscenidade para defender o livro. Àquela altura, já não espantava mais os leitores o uso de "palavras inapropriadas" e as descrições vivas e detalhadas dos encontros sexuais de Constance Chatterley e Oliver Mellors. O que sobressaía era a força literária de Lawrence e a capacidade de capturar uma sociedade em transição.
Esta edição inclui o texto "A propósito de O amante de lady Chatterley", em que Lawrence comenta a controvérsia em torno do livro e justifica suas intenções literárias, e ainda uma introdução de Doris Lessing, vencedora do prêmio Nobel de literatura em 2007. Um apêndice e notas explicativas situam o leitor na geografia das Midlands e no vasto contexto social e político no qual a trama está inserida.
Fontes:
wikipedia.org
google.com
livrosemresumo.com.br
skoob.com.br
resumodelivro.net
fernandobatista89.wordpress.com/w
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