terça-feira, 8 de julho de 2025

¨RESOLVO-ME a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos – e, antes de começar, digo os motivos porque silenciei e porque me decido. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a idéia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas? Restar-me-ia alegar que o DIP, a polícia, enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, me impediram o trabalho. Isto, porém, seria injustiça. Nunca tivemos censura prévia em obra de arte. Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram. raríssimos esses autos-de-fé. Em geral a reação se limitou a suprimir ataques diretos, palavras de ordem, tiradas demagógicas, e disto escasso prejuízo veio à produção literária.¨

Começa assim a obra , ¨Memórias do Cárcere¨ de Graciliano Ramos.








"Memórias do Cárcere", de Graciliano Ramos, é um relato autobiográfico da experiência do autor como preso político durante o período do Estado Novo, no Brasil. A obra detalha os dez meses em que Graciliano foi detido sem acusação formal, passando por diversas prisões, incluindo a de Ilha Grande. O livro não apenas descreve a dura realidade do cárcere, mas também critica a arbitrariedade do regime Vargas e a desumanidade presente no sistema prisional.


Memórias do Cárcere foi publicação póstuma, que ficou inacabada. Se divide em quatro partes: I. Viagens, II. Pavilhão dos Primários, III. Colônia correcional, IV. Casa de correção. 

As experiências narram o período do Estado Novo da ditadura Vargas.

Graciliano foi preso em 1936, acusado de envolvimento com o Partido Comunista do Brasil.

Glória Pires e Carlos Vereza



A primeira edição saiu no mesmo ano da morte do autor, (1953),  e o livro ficou incompleto; segundo o relato de Ricardo Ramos, filho de Graciliano, faltava apenas o capítulo final, em que seriam tratadas as reações do prisioneiro recém-libertado às coisas e pessoas vistas ou reencontradas no Rio de Janeiro, então capital da República, quase 40 anos depois do período em que o escritor alagoano lá vivera na juventude.

Graciliano foi preso no início de 1936, no bojo de uma onda repressiva que antecedeu a decretação do Estado Novo (eufemismo para designar a ditadura de Getúlio Vargas, vigente até 1945). Ficou cerca de 10 meses na cadeia sem nunca ter havido contra ele uma ação judicial. Diferente do Joseph K. de O processo, porém, o escritor brasileiro não termina sendo executado “como um cão”. O que teve foi sua vida arruinada, a despeito de não haver participado de qualquer dos levantes comunistas usados como pretextos para a onda de prisões.

O modo narrativo de Memórias do cárcere é, com frequência, mais ficcional do que memorialístico. O escritor não conseguiu guardar as notas feitas durante o cativeiro, precisou descartá-las para evitar que fossem apreendidas e pudessem figurar como prova de subversão. Em muitas passagens do livro, fica claro que o detalhamento de episódios e caracteres não seria possível sem largo recurso à imaginação. Uma passagem evidencia isso particularmente: o resumo da vida do homossexual chamado Aleixo, que não só tem o mesmo nome de um dos protagonistas do romance Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, mas sua história é praticamente a mesma, porém misturada com a de Amaro, a outra personagem principal do mesmo livro.


A narrativa tem início em março de 1936, quando o escritor morava numa casa na praia de Pajuçara, em Maceió, com a mulher e seis filhos. Apareceram agentes de polícia para prendê-lo e ele foi conduzido de carro e depois embarcado para Recife, onde ficou duas semanas até ser metido no infecto porão do navio Manaus, com destino ao Rio de Janeiro. A partir daí, foram meses de reclusão em vários estabelecimentos penais, sendo o pior deles a colônia correcional da Ilha Grande, que, pelo relato de Graciliano, pouco ficava devendo aos campos de extermínio nazistas. Não por acaso a ditadura varguista teve relações muito amistosas com Hitler, a ponto de enviar para a morte naqueles campos duas militantes brasileiras nas quais coincidiam os “crimes” de serem esquerdistas e terem ascendência judaica. O episódio é mencionado num dos últimos capítulos de Memórias do cárcere.

Além de expor a perversidade de nosso sistema carcerário, que pelo menos naquela época não registrava decapitações espetaculosas, a leitura vale por um mergulho profundo na complicada psicologia de Graciliano. Ele descreve seus percursos interior e exterior ao longo desses meses de reclusão com grande riqueza de detalhes, ainda potencializada pela incapacidade de iludir-se a respeito de nosso destino como país e da própria natureza humana. Entre os grandes escritores brasileiros, o autor de São Bernardo (1934) e Angústia (1936) não foi somente o mais obsessivo com a perfeição do texto; também era o mais incapaz de se deixar prender por qualquer ilusão ideológica. Sua adesão ao Partido Comunista, bem posterior aos meses de prisão, terá todos os motivos menos a crença na patacoada stalinista que era a doutrina oficial da esquerda radical daquela época.

As misérias detalhadas em Memórias do cárcere, especialmente nos meses passados na Ilha Grande, não teria sentido tentar resumi-las. Vão da simples privação de comida à convivência com a escória da sociedade brasileira – presente tanto entre os prisioneiros como entre as autoridades encarregadas de reduzi-los à condição mais subumana possível. 

Emerge da narrativa de Graciliano, um lúcido panorama do Brasil nos anos 1930, porém estruturado pelo avesso, tanto que não existe no livro uma única referência a Getúlio Vargas. Aliás, o próprio Brasil exterior aos estabelecimentos prisionais não penetra neles a não ser por meio de boatos e artigos de jornal – os quais, para o escritor, eram em sua quase totalidade subservientes ao regime varguista.

Em meio a tudo isso, avulta como personagem o próprio narrador, cuja autodepreciação pessoal e literária surpreende a quem dela ainda não teve notícia, por exemplo, por meio da excelente biografia O velho Graça (1992), feita por Dênis de Moraes. Graciliano usa várias vezes o adjetivo “chinfrim” para designar a si mesmo e a sua obra, da qual os dois cumes inexcedíveis tiveram seu princípio de gestação naqueles meses em que o autor esteve, pelo menos em duas ocasiões, à beira da morte: Vidas secas (1938) e Infância (1945). Graciliano, fumante compulsivo, ainda viveu 15 anos depois de ser libertado.

A miséria humana e política descrita nas páginas de Memórias do cárcere talvez traga aos esperançosos um consolo, ainda que débil. É que, mesmo entre indivíduos pagos pelo Estado para torturar e humilhar, alguns conseguiram conservar-se humanos e, por meio de atitudes imprevistas e imprevisíveis de solidariedade, resguardar um pouco da dignidade daquelas pessoas mandadas ao Inferno apenas por terem ideias incômodas aos donos do poder.

Numa chave mais restrita, a leitura pode trazer algum alento no sentido de confirmar que, entre nós, até o fascismo é fajuto, pois essas manifestações de humanidade da parte de esbirros de uma ditadura são virtualmente inimagináveis, por exemplo, entre aqueles autômatos implacáveis fabricados pela Juventude Hitlerista e pela máquina de propaganda ideológica inventada por Goebbels. Pelo menos isso, apesar do recente empenho de certa parte da elite econômica brasileira, ainda não tivemos por aqui.

Em 23 de maio de 1984, o filme Memórias do Cárcere, do cineasta brasileiro Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), estreou no aclamado festival arrancando aplausos dos quase 3 mil presentes. A obra abriu a Quinzena dos Realizadores daquele ano.







Com direção de Nelson Pereira dos Santos, o filme teve participantes os atores: Carlos Vereza (Graciliano Ramos); Nildo Parente ( Emanuel); Tonico Pereira (Desidério); Gloria Pires ( Heloísa).



Fontes:

wikipedia.org
google.com
epedagogia.com.br
unifal-mg.edu.br
sic.unifesspa.edu.com
dw.com/pt

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Gregório Bezerra

Gregório Lourenço Bezerra (Panelas, 13 de março de 1900 — São Paulo, 21 de outubro de 1983) foi um destacado dirigente comunista brasileiro, do PCB, participando dos Levantes da ANL, sendo deputado constituinte de 1946 e opositor da Ditadura Militar Brasileira.





De família humilde, precisou começar a trabalhar no corte de cana de açúcar já aos 4 anos de idade. Aos 9 anos já era órfão de pai e mãe. Os proprietários do engenho o levaram para o Recife com a promessa de colocá-lo na escola, o que nunca fizeram. Gregório foi empregado doméstico e depois deixado na rua.

Viveu nas ruas, dormiu sobre os sepulcros do cemitério de Santo Amaro. Trabalhou como carregador de bagagens na Estação Recife de trens, ajudante de pedreiro e jornaleiro. Seus amigos da venda dos diários liam as notícias para ele, analfabeto, que começou a se interessar em política.


Em 1917 trabalhava como ajudante de pedreiro e participou de manifestações por direitos trabalhistas e em apoio à Revolução Soviética, que colocava trabalhadores e pobres da Rússia no centro do poder do outro lado do mundo. Em duas ocasiões acabou detido por participar das manifestações. Passou cinco anos preso na antiga Casa de Detenção, atual Casa da Cultura, no centro do Recife. Deixou a prisão aos 22 anos decidido a se tornar militar. Se alfabetizaria aos 25 anos de idade, já no Exército, onde passaria 13 anos e chegaria à patente de sargento.

No fim da década de 1920, enquanto o capitão do Exército Luís Carlos Prestes liderava outros militares na Coluna Prestes, que percorreu o Brasil durante 3 anos; Gregório Bezerra atuava como instrutor da Companhia de Metralhadoras na então capital, Rio de Janeiro.





De volta ao Recife, filiou-se ao Partido Comunista (PCB) em 1930. Cinco anos depois, já integrando a Aliança Nacional Libertadora (ANL), Gregório liderou o “Levante Comunista” na capital pernambucana, que ocorreu também em Natal (RN) e no Rio de Janeiro, contra a ditadura Vargas.

O movimento acabou sufocado. Gregório foi condenado a 28 anos de prisão pelo assassinato de um tenente e pela tentativa de roubar as armas do CPOR, centro militar no bairro de Casa Forte, Recife. Ficou preso em Fernando de Noronha e, em seguida, no Rio de Janeiro, onde dividiu cela com outro líder do PCB, Carlos Prestes.

Com o fim da ditadura Vargas, Gregório Bezerra foi anistiado e eleito deputado federal (o mais votado!) por Pernambuco em 1946. Dois anos depois, com a criminalização do comunismo, teve seu mandato cassado. Viveu na clandestinidade por quase uma década, mantendo atuação militante nas zonas rurais do Paraná e de Goiás.

Quando do golpe militar de 1964, Gregório Bezerra foi preso já no dia 2 de abril. Já idoso e vivendo em Cortês, zona da mata sul de Pernambuco, ele articulava camponeses para uma resistência armada em defesa os mandatos do presidente João Goulart e do governador Miguel Arraes.

Levado para o Recife, sofreu uma sessão pública de torturas naquele mesmo dia 2 de abril, comandada pelo tenente do Exército Darcy Villoq Vianna, na Praça de Casa Forte. Os pés de Gregório foram imersos em solução de bateria automotiva (que contém ácido sulfúrico), foi obrigado a andar sobre britas e, por último, o militante comunista foi arrastado por um carro pelos arredores da praça, tudo transmitido por canais de TVs locais. “A dor que senti não sei descrever”, diria ele anos depois. A sessão pública de tortura só foi interrompida após intervenção das freiras do convento da Sagrada Família, que fica na mesma praça.







Condenado a 19 anos de prisão, Bezerra acabou liberto com 5 anos de pena. Isso porque seus camaradas de militância comunista sequestraram, em 1969, o embaixador dos EUA no Brasil e exigiram do regime militar que libertassem 15 presos em troca do estadunidense.

A maioria dos libertados políticos tinham embarcado no Hércules da FAB em São Paulo, Gregório Bezerra embarcou no Recife. Quando de sua entrava no avião, fez-se um silêncio de respeito por sua luta e determinação. 

Ele pediu para um cabo presente que afrouxasse suas algemas, que estavam muito apertadas, o cabo prontamente atendeu o pedido.

Com a anistia, em 1979, voltou ao Brasil. Nas eleições de 1982, candidatou-se à Câmara dos Deputados por Pernambuco, na legenda do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), obtendo apenas a suplência. Em 1979, Gregório Bezerra publicou o livro “Memórias”, relançado em 2011, pela Boitempo Editorial. Faleceu no dia 21 de outubro de 1983, em São Paulo.



Fontes:

wikipedia.org
google.com
brasildefato.com.br
memoriasdaditadura.org.br

sábado, 5 de julho de 2025



Vamos falar hoje do romance de José de Alencar , Cinco Minutos.






"É uma história curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma história, e não um romance.


Há mais de dois anos, seriam seis horas da tarde, dirigi-me ao Rocio para tomar o ônibus de Andaraí.


Sabe que sou o homem o menos pontual que há neste mundo; entre os meus imensos defeitos e as minhas poucas qualidades, não conto a pontualidade, essa virtude dos reis, e esse mau costume dos ingleses.


Entusiasta da liberdade, não posso admitir de modo algum que um homem se escravize ao seu relógio e regule as suas ações pelo movimento de uma pequena agulha de aço ou pelas oscilações de uma pêndula.


Tudo isto quer dizer que, chegando ao Rocio, não vi mais ônibus algum; o empregado a quem me dirigi respondeu :


- Partiu há cinco minutos."


Esse é um trecho do livro de José de Alencar tido junto com a Viuvinha de livros de sua fase romancista.


Cinco minutos foi o tempo que o rapaz se atrasou; quando tomou o ônibus atrasado, conheceu uma estranha e se apaixonou. Após muito procurar pela voz misteriosa (não conseguiu ver seu rosto), conseguiu apenas a resposta de que não poderiam se juntar pela própria moça. Ela viaja, ele a segue, eles se encontram, se declaram e ele parte para achar uma carta dela.








Na carta ela revela estar mortalmente doente e que está privando-se do amor apenas para não haver a dor da separação. Ele persegue-a até a doca onde está o paquete que a levará a Europa e, perdendo o navio, toma o próximo. Na Europa encontra-se com ela e dá-lhe um beijo; o beijo leva Carlota (ela revelou o nome na carta) a se recuperar.


Eles casam-se e permanecem na Europa por um ano; retornam ao Brasil e estabelecem-se no campo. Contado sob a forma de uma carta do jovem à sua prima, este livro é um exemplo clássico do Romantismo ao mostrar um amor puro, casto, duradouro e curativo, sentido por duas almas gêmeas perfeitas, com o destino interpondo-se no caminho e resolvendo-se no final.






Cinco Minutos conta a história do casamento do autor com Carlota. No entanto, para o leitor, parece que está escutando uma história que não é para ele, já que Alencar dirige seu texto a uma prima. O leitor aqui é uma terceira pessoa, um “voyeur” que fica entre José de Alencar e sua prima.


Ao mesmo tempo em que tenta levar o leitor a pensar que tudo é imaginário e faz parte das fantasias do autor, José de Alencar faz questão de narrar fatos verídicos da época, acontecimentos reais que marcaram o Rio de Janeiro no início do século. É tão minucioso nesse aspecto que até narra datas e horários etc.


Atualmente as histórias do autor romântico passam como que quase infantis e ingênuas para o leitor moderno. São narrações em que o amor sempre vence, decisões passionais de amantes, amor e amor e amor. À época, os folhetins eram lidos pelas senhoras burgueses.


No século XIX e início do século XX esses folhetins se assemelhavam às rádios-novelas e depois as telenovelas; Eram editados em capítulos e sempre terminavam num ponto de suspense que levava o leitor a ansiosamente esperar o próximo capítulo.






Exagerando-se um pouco na dose, poderíamos dizer que Alencar lembra remotamente, os livrinhos que embalam os sonhos de moças solteiras, no entanto não se pode deixar de dizer que sua escrita, linguagem, e modo estilístico são de extrema qualidade. Foi Alencar quem dissociou-se do modelo português da escrita para definitivamente inaugurar o texto nosso, brasileiro.


Os livros Cinco Minutos e A Viuvinha falam sobre a vida burguesa. Suas personagens são personagens que, no fundo, representam o ideal acabado da vida burguesa, tropicalmente reproduzida na Corte brasileira. Em Cinco Minutos, o narrador-personagem está disponível, da primeira à última página, para satisfazer a todos os caprichos de sua imaginação. Sem compromisso profissional algum, o aspecto financeiro de suas peregrinações atrás de Carlota não chegam jamais a preocupá-lo.




"Segundo ele dizia, a viagem tinha sido o único remédio e o que nós tomávamos por um estado mortal não era senão a crise que se operava, crise perigosa, que podia matá-la, mas que felizmente a salvou. Casamo-nos em Florença na igreja de Santa Maria Novela. Percorremos a Alemanha, a França, a Itália e a Grécia; passamos um ano nessa vida errante e nômade, vivendo do nosso amor e alimentando-nos de música, de recordações históricas, de contemplações de arte. Criamos assim um pequeno mundo, unicamente nosso; depositamos nele todas as belas reminiscências de nossas viagens, toda a poesia dessas ruínas seculares em que as gerações que morreram, falam ao futuro pela voz do silêncio; todo o enlevo dessas vastas e imensas solidões do mar, em que a alma, dilatando-se no infinito, sente-se mais perto de Deus."


Romance folhetinesco, um tanto ingênuo de um jovem autor que se passa no Rio de Janeiro dos anos de 1850. Romance da fase urbana de José de Alencar.






Fontes:
mundovestibular.com.br
wikipedia.org
google.com
objdigital.bn.br

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Vamos falar hoje da peça de Ariano Suassuna, escrita em 1955, - O Auto da Compadecida.


Como já abordamos nesse blog; Auto é uma peça que aborda temas religiosos ou profanos.





Auto da Compadecida é uma peça teatral em forma de auto, em três atos, escrita pelo autor brasileiro Ariano Suassuna em 1955. Sua primeira encenação aconteceu em 1956, no Recife, em Pernambuco. A peça também foi encenada em 1974, com direção de João Cândido.

Trata-se de um drama ocorrido na região Nordeste do Brasil, com elementos da tradição da literatura de cordel, do gênero comédia e traços do barroco católico brasileiro. A obra mistura cultura popular e tradição religiosa.

Na escrita, apresenta traços de linguagem oral, demonstrando na fala do personagem sua classe social. Há também regionalismos, pelo fato de a história se passar no nordeste, região em que o autor nasceu.

Da literatura de cordel, Suassuna pegou emprestado o personagem João Grilo, personagem folclórico presente tanto no Brasil, quanto em Portugal.

João Grilo figura como o protagonista nos contos portugueses, a exemplo de João Ratão (ou Grilo), dos Contos tradicionais do povo português, de [Teófilo Braga], e da História de João Grilo, dos Contos populares portugueses, de Consiglieri Pedroso.





Também buscou inspiração em dois folhetos de Leandro Gomes de Barros (1865-1918), "O Dinheiro", também chamado de "O testamento do cachorro" e "O cavalo que defecava dinheiro".

Auto da Compadecida projetou Suassuna em todo o país e foi considerada por Sábato Magaldi, em 1962,"o texto mais popular do moderno teatro brasileiro". Anuário  - Academia Brasileira de Letras no Google Livros.  A peça foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1969, com o filme A Compadecida.  A segunda adaptação foi em 1987, com o filme Os Trapalhões no Auto da Compadecida.











Em 1999, foi apresentada como uma minissérie pela Rede Globo de Televisão (em que houve o acréscimo do artigo “o” antes do nome original). Essa foi a adaptação mais conhecida, e foi editada em 2000 para exibição nos cinemas. Nela aparecem alguns personagens, como o Cabo Setenta, Rosinha e Vicentão, que não fazem parte da peça original, mas da obra Torturas de um Coração, além de elementos de O Santo e a Porca, ambas de autoria de Ariano Suassuna.



Ariano Suassuna


A história se passa em Taperoá, na Paraíba, e gira em torno das peripécias de João Grilo, um rapaz esperto e mentiroso, e seu amigo Chicó, um sujeito covarde e também mentiroso. Eles vivem de pequenos golpes e trapaças, enganando padres, bispos, padeiros e cangaceiros, sempre com o objetivo de tirar proveito da situação. A peça aborda temas como a fé, a justiça, a moralidade e a luta pela sobrevivência no sertão.


Fernanda Montenegro - A Compadecida


Por fim eles são julgados pela Compadecida. A Compadecida, figura da religiosidade popular, intervém no julgamento final dos personagens, mostrando a importância da misericórdia e do perdão.


Fontes:

wikipedia.org
google.com
vestibular.brasilescola.uol.com.br
guiadoestudante.uol.com.br

quarta-feira, 2 de julho de 2025



Hoje falaremos da obra de Manuel Antonio de Almeida, "Memórias de um sargento de milícias".







Como de costume, na época, o romance foi publicado na forma de folhetins, no jornal Correio Mercantil do Rio de Janeiro, no período de 27 de junho de 1852 a 31 de julho de 1853.


Como as telenovelas atuais, os romances eram publicados, geralmente semanalmente em jornais de grande circulação.


Como nas telenovelas, terminavam o capítulo num suspense; de modo a incentivar o leitor a comprar a próxima edição do jornal, para saber o que aconteceria.


Apesar de integrar a Escola Romântica, a obra mescla o romantismo com o realismo.


A linguagem utilizada pelo autor era a coloquial, sem no entanto beirar a linguagem ofensiva ou a palavrões.


Basicamente o autor retratava a fala popular, especialmente da população carioca do século XIX.




Manoel Antonio Almeida


“Filho de uma pisadela e de um beliscão” (referência à maneira como seus pais flertaram, ao se conhecer no navio que os conduz de Portugal ao Brasil)


O autor acompanha a trajetória do personagem principal desde o momento em que ele nasceu. Ele foi fruto do romance entre Leonardo-Pataca, um negociante de roupas, e Maria das Hortaliças, uma camponesa. O casal se conheceu a bordo da embarcação que o trouxe de Lisboa até o Brasil. A criança teve como padrinhos a parteira e o barbeiro. O autor acompanha a trajetória do herói da malandragem até sua promoção à posição de Sargento de Milícias.

Desde pequeno o protagonista é marcado pelos reveses do destino, com a fuga da mãe ao lado do capitão de um navio e o abandono do pai, agora um meirinho, posição prestigiada neste período histórico.







Durante a briga mais acirrada de Pataca e Maria, o pai dá o famoso pontapé no protagonista, gesto que lhe deixaria fortes impressões ao longo da vida. Leonardo é criado pelo barbeiro, que se dedica a ele de corpo e alma. O padrinho se apega tanto ao menino que não percebe a sua ausência de caráter, um traço presente em Leonardo desde a infância. O sonho do padrinho é que ele seja clérigo, e para isso o prepara, em meio às travessuras do garoto.

O protagonista passa por várias aventuras, sempre enganando o barbeiro. Anos depois ele ingressa na escola. Nesta ocasião o menino se torna amigo de um sacristão, também propenso à malandragem, e assume a mesma função na Igreja, com a ajuda de Tomás da Sé, pai de seu colega. Enquanto isso, em meio às traquinagens do garoto, o autor vai revelando a libertinagem do padre e o envolvimento desse sacerdote com uma cigana, ex-amante de Leonardo Pataca. O protagonista é expulso da Igreja ao revelar essa história oculta do sacerdote. A única tentativa de frequentar a escola é frustrada; dura apenas um dia, pois na manhã e na tarde o garoto só ganha palmatórias do mestre. Enquanto isso, sua madrinha insistia que ele devia exercer um ofício.

Na mocidade ele se torna um desocupado. Seu pai enfim deixara a cigana e se casara com a filha da parteira, Chiquinha. O protagonista se interessa pela sobrinha de Dona Maria, amiga do barbeiro.






Luisinha agora é órfã e fica sob os cuidados dessa senhora, que ganha sua guarda em uma das famosas contendas, passatempo preferido da senhora. Quando está prestes a conquistar a moça, entra em cena José Manuel, antigo amigo da madrinha de Leonardo. Ele antipatiza com o homem e logo se dá conta das más intenções dele.

Leonardo enfim perde o medo e se declara à Luisinha. Nasce a filha de Leonardo Pataca. A parteira consegue intrigar José Manuel junto à Dona Maria, que fica indignada com o rival de Leonardo. Após a declaração de Leonardo, Luisinha passou por uma grande mudança no corpo e no comportamento. José Manuel encontra um mestre de reza que o ajuda a indispor Dona Maria contra Leonardo. O barbeiro morre e o protagonista é confortado por sua amada. Ele se torna o herdeiro de seu padrinho. Como Pataca passa a administrar a herança, Leonardo é obrigado a ir morar com ele, mesmo a contragosto. Ele e a madrasta entram em guerra.
Após uma discussão acalorada com o pai e a madrasta, Leonardo é expulso de casa, pois o pai dele fica furioso quando seu passado vem à baila no meio da guerra entre o filho e sua nova esposa. Ele vai para o Cajueiro e aí reencontra o antigo companheiro de sacristia e através dele conhece Vidinha, por quem se encanta. O protagonista recebe então a proposta de morar junto com o grupo de jovens na Rua da Vala.






Dois primos de Vidinha competem entre si pelo amor da garota, mas ela gosta mesmo é de Leonardo. Os dois começam a namorar e esse relacionamento provoca ciúmes nos dois pretendentes. Eles vão até Vidigal, o representante da lei, e denunciam que o protagonista está vivendo clandestinamente na residência e se aproveitando das garotas. O herói é aprisionado, mas consegue escapar.
Sua madrinha lhe arranja um trabalho na despensa do rei, mas Leonardo arma mais uma das suas. Ele tem um caso com a mulher de seu chefe, Toma-Largura, e acaba sendo demitido. O herói é preso mais uma vez. Vidinha acaba se envolvendo com o ex-patrão do protagonista ao ir tirar satisfações com ele e a esposa dele, a Moça do Caldo.
Leonardo é forçado pelos policias a se alistar no Exército. Mas ele não resiste e tece suas travessuras até mesmo dentro da polícia. Ao aprontar com Vidigal, é aprisionado de novo. Por insistência da parteira, de D. Maria e da antiga amante, Maria Regalada, o Major acaba perdoando o malandro e lhe garante o posto de Sargento do Exército.
Por outro lado, Luisinha se casara com José Manuel, mas o marido a maltratava e só queria saber da sua herança. Logo depois, porém, o mesmo morre. Então Leonardo, vestido com sua farda de sargento de milícias, enfim contrai matrimônio com a moça, agora uma bela mulher. Com a futura morte de D. Maria e de Leonardo Pataca, o casal toma posse de suas heranças.
Por meio deste personagem Manuel Antonio reproduz os costumes de uma época e expõe de forma bem-humorada a forma como muitos moradores do Rio de Janeiro recorriam à malandragem para ganhar a vida. Cada personagem que desfila pelas páginas desse livro luta para transpor os obstáculos que surgem na jornada que empreendem contra a miséria.
Leonardo é, sem dúvida, o pioneiro na galeria dos personagens malandros da literatura brasileira. Ele representa os seres que, no início do século XX, percorriam as ruas da cidade do Rio de Janeiro.



O autor , Manuel Antônio de Almeida, escreveu apenas essa obra. Nasceu no Rio de Janeiro em 17 de novembro de 1831 e morreu em Macaé - RJ, no naufrágio do navio onde viajava, em 28 de novembro de 1861.




Fontes:
guiadoestudante.abril.com.br
infoescola.com
wikipedia.org
google.com

terça-feira, 1 de julho de 2025



Hoje vamos falar da obra "A Moreninha"de Joaquim Manoel de Macedo.








Publicada em 1844, a obra marca o inicio da ficção do romantismo brasileiro.

Considerado o primeiro romance romântico brasileiro propriamente dito, A Moreninha , obra-prima de Joaquim Manuel de Macedo, segue a tendência do romance-folhetim, alcançando grande repercussão por apresentar os quesitos necessários para satisfazer o gosto do leitor da época: o namoro difícil ou impossível, a comicidade, a dúvida entre o desejo e o dever, a revelação surpreendente de uma identidade, as brincadeiras de estudantes e uma linguagem mais inclinada para o tom coloquial.

O romance é narrado em terceira pessoa, com narrador onisciente. O tempo transcorre na ordem cronológica, apenas uma volta ao passado, nos capítulos sete e oito, quando Augusto conta à D. Ana, avó de seu amigo Filipe, o episódio de seu juramento amoroso. A história se passa e dois lugares: na cidade do Rio de Janeiro, representando a vida urbana e social, e na ilha de Paquetá onde mora D. Ana, simbolizando o paraíso de amor. O estilo do texto é marcado pelo ritmo ágil, com a presença frequente de diálogos entre os personagens, o que nos dá a impressão de que a história está acontecendo no ato da leitura.




Ilha de Paquetá - RJ



Esse livro um dos primeiros romance do Romantismo no Brasil.







O romance A Moreninha conta a história de amor entre Augusto e D. Carolina (a moreninha). Tudo começa quando Augusto, Leopoldo e Fabrício são convidados por Filipe para passar o feriado de Sant’Ana na casa de sua avó. Os quatro amigos estudantes de medicina vão para a Ilha de Paquetá passar o feriado e lá encontram D. Ana, a anfitriã, duas amigas, a irmã de Filipe, D. Carolina e suas primas Joana e Joaquina. Antes de partirem Filipe havia feito uma aposta com Augusto: se este voltasse da Ilha sem ter se apaixonado verdadeiramente por uma das meninas, Filipe escreveria um romance por ter perdido a aposta. Caso se apaixonasse, Augusto é quem deveria escrevê-lo.
Augusto era um jovem namorador e inconstante no amor. Fabrício revela a personalidade do amigo a todos num jantar, o que faz Augusto ser desprezado pelas moças, menos por Carolina. Sentindo-se sozinho, Augusto revela a D. Ana, em uma conversa pela Ilha, que sua inconstância no amor tem a ver com as desilusões amorosas que já viveu e conta um episódio que lhe aconteceu na infância. Em uma viagem com a família, Augusto apaixonou-se por uma menina com quem brincara na praia. Ele e a menina ajudaram um homem moribundo e, como forma de agradecimento, o homem deu a Augusto um botão de esmeralda envolvido numa fita branca e deu a menina o camafeu de Augusto envolvido numa fita verde. Essa era a única lembrança que tinha da menina, pois não havia lhe perguntado nem o nome.

O fim de semana termina e os jovens retornam para os estudos, mas Augusto se vê com saudades de Carolina e retorna a Ilha para encontra-la. O pai de Augusto, achando que isso estava atrapalhando seus estudos, proíbe o filho de visitar Carolina. Depois de um tempo distantes, Augusto volta a Ilha para se declarar a Carolina. Mas ela o repreende por estar quebrando a promessa feita a uma garotinha há anos atrás. Augusto fica confuso e preocupado, até que Carolina mostra o seu camafeu. O mistério é desfeito, e, para pagar a aposta, Augusto escreve o livro A Moreninha.


O romance teve duas adaptações para o cinema (1915 e 1970) e duas para telenovelas (1965 e 1975)




Filme 1970




Novela 1ª versão - Claudio Marzo e Marília Pera (Globo 1965)


Mario Cardozo e Nívea Maria 2ª versão - (Globo 1975)




Fontes:
wikipedia.org
educacao.globo.com
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Vamos falar hoje de objeto direto e objeto indireto. O objeto direto e o indireto são termos integrantes da oração que completam o se...