quinta-feira, 30 de julho de 2026

Massacre do Caldeirão.






Uma grave seca assolou o Ceará em 1932. Por orientação do governo federal, foram construídos campos de concentração ao longo das duas ferrovias que conduziam do sertão a Fortaleza – o objetivo era capturar os trabalhadores e suas famílias antes que eles conseguissem alcançar a capital. Sete espaços de confinamento erguidos ao longo das estradas de ferro de Baturité e de Sobral mantiveram estimados 150 mil refugiados.

Em 11 de maio de 1937, centenas de sertanejos, seguidores do beato paraibano José Lourenço foram massacrados pela Polícia e pelo Exército, na fazenda denominada Caldeirão, situada no Crato, Ceará. O episódio ficou conhecido como Massacre do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto.


Beato José Lourenço e Padre Cícero




José Lourenço Gomes da Silva (1872-1946), nascido em Pilões de Dentro, Paraíba, era filho de escravos alforriados. Muito jovem foi trabalhar na agricultura, afastado da família que migrara para Juazeiro do Norte, no Ceará.



Admirado pela vida austera, pelo fervor religioso e pela atuação junto às populações mais necessitadas, José Lourenço receberia a missão de criar uma comunidade religiosa para abrigar os flagelados e camponeses sem-terra enviados por Padre Cícero.

Para tocar o projeto, o beato arrendou o sítio Baixa Dantas, localizado na cidade do Crato, na região do Cariri, sul do Ceará. Ali, romeiros e camponeses ergueram um oásis, onde a terra era cultivada de forma coletiva e a produção era dividida de forma igualitária. Um modelo de organização comunitária autônomo e fraterno, rompendo com a lógica exploratória dos grandes proprietários da região.




A cidade começava, então, a atrair muita gente pela presença carismática de Cícero Romão Batista, o Padre Cícero (1844-1934). Aos vinte anos de idade, José Lourenço foi para Juazeiro, onde reencontrou sua família. Em Juazeiro, tornou-se beato, adotando um modo de vida simples, celibatário, religioso, desapegado das coisas materiais. Usava vestes de frade: uma batina preta, com uma cruz nas costas e um cordão de São Francisco amarrado na cintura. Ingressou na ordem dos penitentes que se reuniam à noite diante de locais sagrados para praticarem autoflagelação como forma de purificação do espírito.



A morte de Padre Cícero, em 1934, tirou de cena o principal defensor do Caldeirão. Na sequência, o comando da igreja católica na região do Crato, que já criticava o beato e desaconselhava que ele fosse seguido, tornou as críticas mais veementes. Em 1937, a instauração do Estado Novo no Distrito Federal facilitou a realização de operações militares contra quaisquer atividades que pudessem ser caracterizadas como comunistas.

Com o apoio do Exército, a recém-criada Polícia Militar do Ceará passou a realizar incursões contra a comunidade. A cada ação, dezenas de pessoas eram mortas. Até que aviões militares sobrevoaram o local. O pretexto era fazer um mapeamento pelo alto, mas foram lançadas granadas e metralhadoras foram disparadas. Há controvérsias sobre o uso de bombas. Não sobram dúvidas, entretanto, a respeito do uso do avião para atacar os locais. Em poucos meses, o local estava em ruínas e os fugitivos, caçados.

“O combate aos sertanejos seguidores do beato foi planejado. E pode-se dizer que tudo foi arquitetado da maneira mais cruel e humilhante, com a intenção de destruir e evitar que movimentos semelhantes não ocorressem novamente”, afirma Medeiros em sua tese; “Os sertanejos viram de perto suas casas sento destruídas, anos de trabalho virando cinza”.







Quanto ao beato, ele conseguiu escapar, para Exu, em Pernambuco. Incansável, tentou criar uma nova comunidade, o Sítio União. Mas morreu em 1946, vítima de peste bubônica. Tinha 74 anos e havia dedicado mais de metade de sua vida a formar assentamentos autossuficientes. Seu legado foi varrido para baixo do tapete dos registros históricos oficiais.







Fontes:

wikipedia.org
operamundi.uol.com.br
gazetadopovo.com.br
ensinarhistoria.com.br
google.com
leiaurgente.com.br

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